quarta-feira, 9 de março de 2011

RASHBI, O MÍSTICO

Túmulo do rabino Shimon bar Yochai na cidade de Meron, na Galileia. Foto de autor desconhecido, cerca de 1880.

Uma narrativa do Talmud de Jerusalém: Rabi Akiva, ao ordenar seus dois alunos mais destacados, o Rabi Meir Baal Ha'Ness - Mestre dos Milagres - e o Rabi Shimon Bar Yochai, assim se teria expressado: 'Deixa que primeiro se sente Rabi Meir'. Empalidecendo, Rabi Shimon ouviu o mestre, Rabi Akiva, que continuando, lhe confidenciava: "Basta que o Criador e eu tenhamos consciência de teu poder".
 
O que nos ensina esta história? Ensina-nos que o mérito do Rabi Shimon era tão extraordinário que somente D'us e seu mestre podiam apreciá-lo, inteiramente. Não podemos falar de Rabi Shimon sem primeiro mencionar Rabi Akiva, seu guia. Se quisermos louvar o discípulo, primeiro devemos render as homenagens ao mestre - ainda que de forma sucinta. Analfabeto até completar 40 anos, Akiva se tornaria o maior dos mestres do Talmud. Segundo relatos neste último e no Midrash, até mesmo a alma de Moisés sentiu-se humilde diante do vasto conhecimento em questões da Torá e do auto-sacrifício que Akiva se impôs. Ele foi um dos quatro sábios que, ainda vivos fisicamente, adentraram o Pardês - o Jardim do Misticismo - vivenciando o Mundo Vindouro. Foi o único a voltar com vida, bem disposto e em paz. Não surpreende, portanto, o fato de seu aluno mais destacado ter-se tornado "o pai" do misticismo judaico. A vida e o heroísmo de Rabi Akiva estão descritos no Talmud e na liturgia de Yom Kipur. Foi torturado e executado pelos romanos por ter salvo o judaísmo, desafiando o decreto de Roma que proibia o ensino da Torá. Rabi Akiva certamente legou ao maior de seus discípulos os seus dons místicos, a sua paixão insaciável pela Lei de Moisés e a sua forte oposição a todos que não acreditavam num D´us Único.

Rabi Shimon, também conhecido como Rashbi (uma sigla tirada das iniciais de seu nome - Rabi Shimon Bar Yochai), viveu durante o segundo século da Era Comum. De modo similar a seu mestre, em época de grandes perseguições romanas. Conhecido como um grandioso artífice de maravilhas, era convocado pelos judeus para realizar milagres em sua intenção. E, por isso, apesar do ódio ancestral que ele nutria pelos romanos - nunca os tendo perdoado pelos crimes indescritíveis que cometeram contra seu mestre e contra seu povo - os líderes judeus da época o enviaram a Roma. Levava a missão de tentar convencer o imperador romano a extinguir a proibição de se praticar a religião judaica. Ao descrever esse episódio, o Talmud nos relata um dos inúmeros milagres que marcaram a vida do Rashbi: a filha do imperador, possuída por um demônio, esbravejava dizendo que só havia um homem que a podia exorcizar e que este atendia pelo nome de Rabi Shimon Bar Yochai. O místico judeu o conseguiu - e a proibição foi revogada.

No entanto, o ódio que tinha de Roma permanecia imutável e ele nada fazia para disfarçá-lo; pouco faltou para que se tornasse mútuo. No ano de 3909 (149 da E.C.), Rabi Shimon, ouvindo um colega judeu louvar as conquistas romanas, reagiu dizendo que "tudo o que haviam feito de bom tinha sido em seu próprio benefício, além de motivados por propósitos imorais". A discussão chegou aos ouvidos das autoridades romanas, que decretaram que ele fosse morto.

Ato contínuo, o Rabi e seu filho, Rabi Elazar, fugiram e se esconderam em uma caverna. Lá permaneceram durante treze anos, estudando, noite e dia, a Torá. Sustentaram-se, dentro da caverna, do fruto de uma alfarrobeira e da água de uma fonte, surgida do nada. Durante os anos em que viveram na caverna, pai e filho - tendo o estudo da Torá como única ocupação - foram visitados pelas almas de Moisés e do profeta Eliahu, que lhes transmitiram os segredos místicos mais profundos do universo. E exatamente essa riqueza de conhecimentos, adquiridos na caverna, foi transcrita como sendo o Zohar - a obra na qual se fundamenta a Cabalá.

Transcorridos doze anos da reclusão dos eruditos, morre o governador romano, levando consigo o decreto de morte contra Rabi Shimon. Quando o grande sábio e seu filho emergem do isolamento da caverna, deparam com um homem que arava e semeava a terra. Os dois, que se tinham recolhido por mais de uma década numa caverna, exclusiva e ininterruptamente estudando a Torá, não podiam compreender como devotava um judeu o seu tempo a uma ocupação mundana qualquer - e não a questões eternas, como a oração e o estudo da Lei. Encararam, pois, o homem, com desagrado, e de seus olhos se projeta um raio de fogo que o queima. Eis que dos Céus lhes chega uma voz, tonitruante: "Para destruir o Meu mundo saístes da reclusão?" E a Voz lhes ordenou voltar ao isolamento da caverna, tendo lá permanecido por mais um ano, imersos no estudo. Quando, pela segunda e última vez emergem da caverna, pai e filho regozijaram-se ao constatar que os judeus de Israel se ocupavam do cumprimento dos sagrados Mandamentos Divinos. Já não incomodava ao Rashbi o que de mundano o cercava e disse a Elazar, seu filho, que o que ambos estudaram da Torá bastava para sustentar o mundo. Rabi Shimon estava em busca de maneiras de retificar o mundo; não de condená-lo.

De seu longo confinamento, emergiu Rabi Shimon espiritualmente mais sábio e mais poderoso do que nunca. Reunindo seu filho, seu genro e os discípulos mais próximos, começa a lhes revelar os segredos da Cabalá que ele próprio recebera durante os treze anos em que estivera recluso. Esses grandes mistérios e revelações sobre o processo da Criação, sobre o relacionamento de D'us com nossa existência e sobre a feitura da alma humana eram transmitidos oralmente, de geração em geração, pelos grandes líderes espirituais do povo judeu exclusivamente a seus pares. Mas, com Rabi Shimon, a Cabalá começou a ser transcrita, de forma sistemática, e divulgada pelo mundo. Daí considerarem-no o "pai" do misticismo judaico. Um de seus discípulos, Rabi Abba, seu escriba mais proeminente, foi quem redigiu o Sefer Ha'Zohar - "o Livro do Esplendor" - espinha dorsal dos estudos cabalísticos.

A grandeza de Rabi Shimon


Sabemos que Rabi Shimon bar Yochai foi o maior dos discípulos de Rabi Akiva. Mas, que mérito extraordinário possuía esse homem para ser o pai do misticismo judaico? Vejamos o que o Talmud, o Midrash e as gerações de Grandes Sábios que o sucederam disseram sobre sua pessoa.
E assim falou o Talmud: toda mulher que dá à luz um filho homem deve pedir a D'us que a criança se desenvolva à imagem do Rabi Shimon Bar Yochai. Ele serve de modelo, ainda que inatingível, para cada um de nós, judeus. O sábio não dominava, apenas, o misticismo judaico, mas era também verdadeiro gigante em seus conhecimentos da Torá revelada - ou seja, o Talmud e obras correlatas. Isto é tão verdade que quando determinada lei judaica não está em consonância com sua opinião, o Talmud declara: "Pode-se confiar na opinião de Rabi Shimon em uma situação de impasse". Ademais, suas opiniões eram tão conhecidas pelos sábios que quando o Talmud atribui uma afirmação a Rabi Shimon sem, no entanto, identificar a qual dos rabanim com esse mesmo nome se refere, a regra é que sempre se trata do Rabi Shimon Bar Yochai. Algo ainda mais marcante: ele tem a distinção singular de ser mencionado em praticamente todos os capítulos do Talmud! Há apenas três exceções, sendo que nenhuma dessas trata especificamente da lei judaica. O vasto conhecimento desse sábio, portanto, abrangia desde os domínios mais esotéricos e legislativos da Torá até suas mais profundas entranhas místicas. O autor do hermético Zohar discorre, no Talmud, sobre os detalhes mais intrincados e delicados da lei judaica. Tinha a habilidade ímpar de entender essas duas áreas do conhecimento não como disciplinas distintas, mas como uma unidade combinada, da qual o aspecto jurídico era o corpo e o elemento místico, a alma. Integrados, os dois aspectos compunham a Torá, única e una.
Esta unidade dentro da Torá, que Rabi Shimon conseguira visualizar, permitiu-lhe perceber a Unidade Divina inserida dentro de nosso mundo material. Via o estudo de seus Cinco Livros como uma empreitada sagrada, abrangente, que podia influenciar e controlar até os mínimos detalhes da vida humana.
O Zohar nos conta que, certa vez, a Terra de Israel amargava uma grave seca. Ao procurarem, os judeus, o Rabi Shimon, pedindo que intercedesse aos Céus para salvá-los, ele lhes expôs o versículo 133 dos Salmos, onde se lê: "Ó, como é bom e prazeroso quando unidos vivem os irmãos...". E, de imediato, as nuvens se transformam em chuva. O que havia de tão especial nesse relato? Diferentemente de todos os outros homens santificados, este homem especial não precisou orar, rogando pela misericórdia e abundância Divina; bastou-lhe comentar sobre a Torá. Tinha meios de fazer com que a riqueza espiritual de nossa Lei se manifestasse em nosso mundo como riqueza material.
Dele o Talmud diz: "Torató umanutó" - "Sua profissão era a Torá". Devotado, inteiramente, ao seu estudo, ele era completamente imune às preocupações mundanas. Tinha o mérito de ter suas necessidades diretamente providas por D'us, sem que tivesse que se afastar dos livros sagrados para buscar o seu sustento. Outros seguiram seu exemplo, em vão, no entanto. Sem sombra de dúvida, o Rashbi foi e continua único, sem paralelo na história da humanidade.
Conta-nos o Talmud que Bar Yochai estava habituado a ver obrarem-se milagres por seu intermédio. Uma pequena história: certa vez, ao entrar em uma sala de estudos, viu os alunos em silêncio. Perguntando a razão para tal inatividade, soube que não tinham óleo e, portanto, estavam sem luz para estudar a Torá. Tinham apenas vinagre que, como se sabe, não é inflamável. Foi então que o Rabi lhes ensinou: "Usem o vinagre e Aquele que ordenou que o óleo queimasse, encarregar-se-á de fazer o mesmo com o vinagre". Os alunos obedeceram e, pasmos, viram o vinagre arder, obtendo com sua chama a luz que lhes faltava para o estudo.
Esta história é especialmente memorável por incluir os dois elementos principais que marcaram a vida do sábio: dedicação absoluta à Torá e a realização de milagres, muitos milagres. E o que nos conta o Midrash sobre Rabi Shimon? Que em toda a sua vida nunca se viu um arco-íris. Nossos Sábios explicam que o arco colorido aparece nos céus quando D'us pensa em novamente mandar uma enchente para destruir a terra. No capítulo 9 da Gênese, D'us promete que sempre que a humanidade fosse tão indigna quanto o fora a geração de Noé, o arco-íris O lembraria de Sua promessa de nunca mais destruir o Seu mundo. Assim, o Midrash ensina que se, durante toda uma geração, o arco-íris nunca se fez ver, certamente algum homem excepcionalmente piedoso viveu naquela época; um homem de um mérito tão grande que serviu como garantia de que D'us não se arrependeu de Sua criação e de Suas criaturas. Ensina, também, que em toda a história somente houve dois justos de tão grande porte, um dos quais, o Rabi Shimon Bar Yochai.
Não nos enganemos: ele próprio estava ciente de tudo o que era. "A verdade é o Selo Divino", revela o Talmud. E, portanto, a verdade não pode ser sacrificada - nem mesmo em nome da humildade, outro dos atributos Divinos. Rabi Shimon sabia que era ele o pilar do mundo. Dizia que, através de seus méritos, conseguiria eximir o mundo inteiro da severidade do julgamento Divino. A não-aparição do arco-íris durante sua vida serve de ratificação Divina para suas palavras. Ele queria invocar a misericórdia e a compaixão de D'us para o povo judeu, absolvendo-o de todo e qualquer castigo por suas transgressões. Afirmava, também, que se havia dois homens grandiosos em sua geração, estes eram seu filho Elazar e ele próprio; e se apenas um existisse, este um era ele. Outros Sábios e comentaristas do Talmud foram ainda mais fundo, fazendo com que sua afirmação se parecesse a uma meia-verdade. Um desses afirmou que se, em todos os tempos, realmente houve um único homem justo e grandioso, tratava-se do Rashbi.
Os sábios talmudistas não pouparam palavras de louvor acerca dele, comparando seus dotes proféticos aos de Moshé Rabeinu. E, de fato, os místicos posteriores nos ensinaram que a alma dele se tinha originado na de Moisés e na do Messias.

Lag Ba´Omer : o último dia de vida de Rabi Shimon Bar Yochai na terra


Jazia no leito, em casa, cercado de seus discípulos. Algumas horas antes de sua partida deste mundo, ele começou a revelar cada vez mais segredos místicos ainda por serem revelados. Tinha plena consciência de que suas revelações dariam origem, no futuro, a vários movimentos judaicos importantes. O dia marcado para ser o seu derradeiro, neste mundo físico, era Lag Ba'Omer, o 33º dia da contagem do Omer, trinta e três dias após o primeiro dia de Pessach. Rabi Shimon intuiu que no último dia de sua existência, teria que passar adiante todos os segredos que lhe tinham sido desvendados. Do contrário, tal riqueza estaria perdida para sempre.
Seu falecimento foi envolto em dramaticidade, como o fora sua vida. O sol se esvaía no horizonte. Rabi Abba tentava anotar tudo o que seu mestre dizia, mas as belas palavras que saíam dos lábios deste último vinham aos borbotões, intermináveis. Bar Yochai continuava, como que pregando; o discípulo, escrevendo. Eis que os demais alunos viram o sol interromper a sua marcha, recusando-se a se pôr. De súbito, ergue-se uma cerca de fogo em torno da casa. Ninguém entrava, ninguém saía. E Rabi Shimon continuava a falar e Rabi Abba a anotar. Até que, por fim, Rabi Shimon se deteve; fez-se um clarão estupendo, uma luz gloriosa iluminou a casa. Sua alma finalmente ascendera ao Criador.
Perguntamo-nos: seria Lag Ba'Omer, dia de seu falecimento, um dia de luto para o povo judeu? Muito pelo contrário! Rabi Shimon instruíra os discípulos para que o dia de sua morte fosse de grande celebração por todas as futuras gerações de judeus. A razão para tal era que a data marcava o ponto culminante de tudo o que o mestre alcançara no decorrer de sua vida física.
No dia de seu passamento, o Rashbi conseguira transmitir uma quantidade muito maior de segredos cabalísticos do que o fizera ao longo de toda uma vida. Dissera "ter esperado por esse dia, a vida inteira". Além disso, o Zohar ensina que o poder de um tzadik - um homem integralmente justo e virtuoso - aumenta após sua morte.
Lag Ba'Omer é o dia em que a alma de Rabi Shimon ascendeu a uma esfera superior dentro dos reinos espirituais. Esse dia é permeado pela intensa luz que ele introduziu em nosso mundo. Por conseguinte, é um dia no qual cada um de nós tem a capacidade de buscar a seiva da retidão nas mais íntimas das dimensões do mundo - em nossa alma, em nossa Torá e em nossa conexão com D'us - transportando dentro de nós a força de sua inspiração ao longo do ano. Celebramos Lag Ba'Omer como a festividade pessoal de Rabi Shimon e como o dia que tornou a alma mística da Torá acessível a cada um de nós.
Rabi Shimon Bar Yochai e seu filho Elazar estão enterrados em Meron, cidade na Alta Galiléia, em Israel. Em Lag B'Omer, centenas de milhares de judeus visitam seu túmulo, implorando a D'us para que, pelo mérito desses dois homens santos, eles próprios sejam merecedores de saúde, descendência e fartura. Conta-se que inúmeros milagres têm ocorrido à beira de sua sepultura, nesse dia. Como tributo ao Rabi Shimon, acendem-se, anualmente, em Lag Ba'Omer - seja em Meron, em outras partes de Israel ou na Diáspora - grandes fogueiras para celebrar a imensa luz que ele trouxe ao mundo, em especial no dia de seu passamento.
Sua chama continua acesa. Sua memória e também o seu mérito. Pois que assim nos ensinaram os místicos judeus: quando não se tem mais ninguém com quem contar - quando tudo já parece desesperançado - um judeu pode sempre confiar no Rabi Shimon Bar Yochai. Seu mérito é o bastante para invocar o perdão Divino até que chegue a era messiânica. Os ensinamentos do Rashbi serviram como a fonte de luz e inspiração que ajudou a preservar o povo judeu em seus momentos mais difíceis. Muitos homens grandiosos que o seguiram - Rabi Yitzhak Luria, o Baal Shem Tov e tantos outros - ajudaram a iluminar o mundo com a chama oriunda de Bar Yochai. Esta chama irá iluminar o caminho que levará para fora do exílio até o último dos judeus. E quando isto ocorrer - que esteja próximo esse dia - o mundo inteiro viverá da maneira como Rabi Shimon julgava que se devia viver. "Pois que a terra se encherá do conhecimento do Eterno, nosso D'us, como as águas cobrem o mar". (Isaías, 11:9).

Traduzido por Lilia Wachsmann

quinta-feira, 3 de março de 2011

HOMENAGEM


Moacyr Scliar: dois artigos mostram um pouco da beleza de sua obra

Moacyr Scliar Z`L`nasceu em Porto Alegre , em 1937. Graduado em medicina, especializou-se em saúde pública. No campo da literatura, escreveu mais de 70 livros e ganhou vários prêmios, inclusive  o Jabuti (quatro vezes) e ocupava a 31ª cadeira da Academia dos Imortais (ABL). O autor, que já estava internado por causa de um AVC, faleceu aos 73 anos de idade, sendo velado na Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul,   em Porto Alegre.

Reproduzimos dois artigos de sua autoria, um sobre o que um pai judeu deseja para seu filho, divulgado pelo Colégio I. L. Peretz, e outro sobre projetos que deixamos na gaveta. Ambos dão a dimensão de como sua pena fluía sobre os mais variados temas, tocando a cada um de nós.

A literatura, a cultura e a sociedade brasileira perderam um grande escritor, um autor que soube como poucos inserir e consolidar a temática judaica na literatura brasileira, e mais do que isso, um homem com acurada sensibilidade, cujos textos trazem um pedacinho de cada ser humano, com suas dúvidas, incertezas e mazelas, com suas alegrias e superações. Sua obra,  atemporal, é um verdadeiro presente para a humanidade.  



Sonho de Pai

Num destes dias, dei uma palestra para o círculo de pais e mestres do Colégio Israelita Brasileiro, em Porto Alegre. Às tantas, perguntaram-me se eu colocaria o meu filho - que vai fazer dois anos - no colégio. Respondi que sim. E aí perguntaram-me o que esperava eu do colégio. É o que respondo agora.

Talvez seja melhor dizer, primeiro, o que não espero do colégio, e isto pode ser resumido numa frase: não espero, e não desejo, que um colégio judaico transforme o meu filho num ritualista, numa pessoa que cumpre preceitos religiosos sem saber exatamente o que está a fazer, nem por quê; numa pessoa rígida, intolerante, voltada para o passado ao invés de estar preocupada com o presente e com o futuro.

Não digo que o passado não seja importante. Eu gostaria que o meu filho conhecesse a história judaica e, sobretudo, que a entendesse como parte da história da humanidade. Gostaria que o meu filho soubesse que tudo que aconteceu aos judeus não resultou nem do acaso, nem de um desígnio misterioso; se os judeus foram muitas vezes bode expiatório, isto aconteceu porque foram apanhados no entrechoque violento de forças e interesses contraditórios: feudalismo versus capitalismo, capitalismo versus socialismo e assim por diante.

Eu gostaria que este conhecimento da História e dos mecanismos que fazem a sociedade dessem ao meu filho sabedoria e tranquilidade; que o livrassem dos fantasmas da paranóia, doença tão comum entre nós.

Eu gostaria que o meu filho tivesse acesso à cultura judaica, tanto por ela ser judaica, como por ser cultura. Gostaria que ele tivesse o mesmo prazer e a emoção eu que sinto ao ler os contos de Scholem Aleichem, Mendele e Peretz; as histórias de Isaac Babel e Michael Gold; os livros de Below, Malamud, Bashevis Singer e Philip Roth. Gostaria que ele ficasse extasiado diante dos quadros de Chagall, que gostasse de música Yidish, das canções hebraicas, da dança de Israel. Gostaria, modestamente, que ele lesse o que eu escrevi e que sentisse o judaísmo nos meus próprios livros: gostaria disto, como pai e como judeu.

Gostaria que o meu filho tivesse bagagem intelectual sem ser pedante; que compreendesse que literatura, música e pintura devem tornar as pessoas melhores - não superiores - que sentir é tão importante como saber. Gostaria que ele aprendesse a chorar como só os judeus sabem chorar, e a rir como nós: aquele nosso meio sorriso, meio amargo, meio filosófico.

Gostaria que o meu filho estivesse solidário com Israel. Que compreendesse o quanto o Estado significou em termos de elevar a dignidade do povo judeu e da magnífica experiência humana. Gostaria que o meu filho tivesse a mentalidade de um kibutznik, mesmo vivendo no Brasil, ou talvez justamente por isto: gostaria que o meu filho tivesse um ideal e que lutasse por ele, não se sacrificando, porém, a fantasias neuróticas.

Gostaria que o meu filho não fosse um sectário: que não colocasse, em pólos irremediavelmente opostos, judeus e árabes, israelenses e palestinos. Que soubesse que neste mundo há lugar para todos, é só uma questão de ajuste. Que soubesse que, de cada vez que há uma guerra, alguém lucra com isso.

Não sei se é pedir demais em troca da mensalidade escolar. Mas, afinal, a educação tem uma componente de sonho enxertado na dura realidade cotidiana. E sonhar não é proibido.

Moacyr Scliar



Os Projetos na Gaveta

Todos temos, em nossas gavetas, uma pasta com fragmentos de papel em que garatujamos algo que poderia ser a fórmula de nossa felicidade.

Tenho, numa gaveta, uma pasta de cartolina na qual escrevi Ideias. Seu conteúdo: folhas de papel, dos mais variados tamanhos e formatos, incluindo bloquinhos de anotações de hotel, convites para eventos e lançamentos de livros (um destes de minha autoria), folhetos de propaganda. Em todas essas folhas há algo rabiscado:

as ideias. Ideias para contos, ideias para crônicas, ideias para livros até. Ideias em profusão, ideias que ao longo do tempo me iam ocorrendo e que eu, como tantos que escrevem, anotava para posteriormente desenvolvê-las. O que, na imensa maioria dos casos, nunca aconteceu. E isso por várias razões.Para começar, em muitos casos não consigo entender o que escrevi. Em parte isso resulta da famosa letra de médico, uma situação que, a propósito, não deixa de ser intrigante: de onde viria essa fama de clássica ilegibilidade? Da pressa com que os doutores, sempre lutando com a falta de tempo, escrevem? Ou seria uma curiosa manifestação de poder, tipo "decifra-me ou te devoro", como dizia a esfinge na história de Édipo? Ou simples desleixo? Mistério, mas de qualquer maneira, uma questão à parte, mesmo porque, além desse componente, digamos, profissional, pesavam as circunstâncias em que as mensagens eram escritas: num carro sacolejante, por exemplo. Ou no meio da noite, os olhos fechando de sono.

Como se isso não bastasse, mesmo legíveis, as anotações revelam-se crípticas, misteriosas. Citando ao acaso: "A frase no sonho", "Inventário das dores", "Catastróficos e deslumbrados", "Ator morre antecipando a morte", "Se Deus se materializasse", "História do cirurgião que inventa uma operação maravilhosa", "Foi melhor assim".

Vamos ficar só com estas duas últimas. "História do cirurgião que inventa uma operação maravilhosa". Que operação seria essa? Que doença ela curava, que problema resolvia? E o que acontecia, Perguntas intrigantes. Mas "Foi melhor assim" é, em matéria de enigma, ainda pior. "Foi melhor assim" - o quê? De que fala, essa frase? A quem se refere? Que história ela resume?

Todas estas anotações têm uma coisa em comum: são projetos que não decolaram. Por quê? Porque não tinham em si próprios a carga criativa suficiente para impô-los a seu próprio autor? Porque tornaram-se incompreensíveis? Estas coisas envolvem um grau de mistério que não é pequeno. E aludem a esse aspecto característico da condição humana: todos temos sonhos não realizados, objetivos não atingidos. Todos temos, em nossas gavetas, uma pasta com fragmentos de papel em que garatujamos apressadamente algo que certamente poderia ser a fórmula de nossa própria felicidade. Ah, se ao menos lembrássemos o que ali escrevemos. Se ao menos entendêssemos nossa própria letra.

Moacyr Scliar

Edição : Lia Bergmann - Assessora de Direitos Humanos e Comunicações da B'nai B'rith do Brasil

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sinagoga incendiada na Tunísia

04/02/2011

A sinagoga de El Hamma, perto da cidade de Gabes, no sul da Tunísia, foi incendiada por um grupo de desconhecidos, afirmou Trabelsi Perez, líder da comunidade judaica de Djerba, localidade a 500 quilômetros de Tunis.

"Pessoas atearam fogo à sinagoga e os pergaminhos da Torah (livro sagrado dos judeus) foram queimados", precisou Perez, em declarações, via telefone, à agência noticiosa francesa AFP. Surpreende-me que isto tenha acontecido, porque policiais estavam não muito longe da sinagoga", acrescentou Perez, que também é responsável pela sinagoga de Ghriba, a mais antiga do continente africano, localizada na ilha de Djerba. Em abril de 2002, a sinagoga de Ghriba foi alvo de um atentado com um caminhão, ataque que foi posteriormente reivindicado pela Al-Qaeda. O atentado deixou 21 mortos: 14 turistas alemães, cinco tunisinos e dois franceses.

O líder religioso disse ainda à AFP que na sexta-feira passada vários carros foram vandalizados no bairro judeu de Houmt-Souk, a capital da ilha de Djerba. "Neste momento, Djerba está calma, mas as pessoas (da comunidade judaica) estão com medo", concluiu. A comunidade judaica da Tunísia tem atualmente cerca de 1.600 pessoas, a maioria das quais vive em Djerba.
 
Nas últimas semanas, a Tunísia tem vivido um momento de grande conturbação social e política, que acabou por provocar a queda do Presidente tunisino Zine El Abidine Ben Ali. Várias cidades tunisinas têm sido palco de manifestações, como aconteceu no centro de Kasserine (centro-oeste), onde centenas de manifestantes se concentraram para denunciar a situação caótica na cidade, que foi palco de incidentes violentos.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

CABALA E A CURA PELA ÁGUA

Há milhares de anos os mestres cabalistas vêm ensinando que os maiores segredos da cura e longevidade para a espécie humana se encontram na água. Não por acaso, logo no início da bíblia temos o texto em código que aponta para a divisão “entre águas de cima e águas de baixo”.

No entanto, o que era um conhecimento aparentemente místico se tornou científico quando o Dr. Masaru Emoto, um cientista japonês, apresentou os resultados da experiência que fez fotografando moléculas cristalizadas de água. A pesquisa demonstrou como o efeito de sons, pensamentos e sentimentos alteram a estrutura molecular da água. A técnica de sua pesquisa consistiu em expor a água a diversas situações, congelá-la e depois fotografar os cristais formados pelas suas moléculas. O Dr. Emoto tirou fotos de moléculas de água submetidas a diferentes qualidades de energia, como por exemplo: à alguns minutos de música clássica, à uma corrente de oração, à voz de Adolph Hitler, extraídas de um rio poluído, extraídas de uma nascente .

        O trabalho, concluído em 1999, provou através de fotos microscópicas que a água apresenta uma mensagem essencial para o ser humano. As fotos das moléculas da água submetida à música suave ou às correntes de orações eram lindas e harmônicas, enquanto as fotos da água submetida à péssimas qualidades de energia, como por exemplo, a voz de Adolf Hitler, mostraram-se assustadoras. Já um simples “muito obrigado” mudou por completo a aparência do cristal de água.

Como setenta por cento de nosso corpo é composto de água, o resultado final do trabalho leva a conclusão de que palavras e pensamentos ruins farão tão mal para nossa saúde quanto água poluída, assim como as palavras e pensamentos positivos serão para nosso corpo como a mais pura água da nascente. O resultado comprovou o que os antigos mestres cabalistas já afirmavam há milênios: que uma simples mudança na relação com a água pode trazer enorme vitalidade para nossas vidas.

         Você também pode se beneficiar da cura pela água. Para tal, procure diariamente, de preferência em jejum, encher um copo com água e começar a projetar pensamentos e emoções muito construtivas para o recipiente. O copo deve ser de água mineral e precisa ser segurado com a mão direita. Depois deve ser bebido de uma só vez. Você também pode dar essa água a alguma pessoa próxima que estiver com problemas de saúde, Temos registrados depoimentos de centenas de pessoas que tiveram grande benefício dessa prática. Com animais domésticos o resultado é ainda mais surpreendente.

          Assim, diante de um mundo dominado pela alta tecnologia, onde o acesso à saúde se tornou um símbolo do poder do capital, começamos a descobrir a eficácia das ferramentas mais simples, e que como todas as coisas realmente importantes da vida, são obtidas não pela via material mas através do coração tomado por bons sentimentos. Eis um grande segredo para a cura.
Lehaim!

QUEM SE ESFORÇA, ENCONTRA...

Consta na Torá: "Veasú li mikdash veshachanti betocham" - e me farão um santuário e morarei entre eles. Diz o Midrash que quando D'us

lançou esta ordem, Moshé Rabenu, espantado, perguntou: "Como é possível ao ser humano construir uma morada para o Eterno? Nada neste mundo pode conter o Todo-Poderoso!" Disse D'us a Moshé: "Saiba que Meu pedido é proporcional à capacidade do povo e não ao que Eu realmente mereço...!"

Daí, segundo o Chafets Chaim, concluímos que o Todo-Poderoso exige do ser humano apenas aquilo que está dentro de seu alcance e de acordo com suas possibilidades. Nunca D'us irá querer que o ser humano faça algo que lhe seja impossível.

Nossos sábios lembram-nos na Ética dos Pais (cap. 2:16): "Você não tem obrigação de concluir o trabalho (referindo-se ao serviço do Todo-Poderoso), porém você não está livre para não o realizar".

Isto significa que a pessoa não deve desistir de iniciar o trabalho espiritual alegando que é impossível terminá-lo, já que não lhe foi ordenado concluir o trabalho, mas apenas iniciá-lo. O Todo-Poderoso pede e exige do ser humano apenas o esforço, não o resultado. Por isso, o ser humano não está livre de deixar de realizar a sua obrigação - cada um deve agir de acordo com as suas possibilidades. E é justamente isto que nossos sábios nos ensinam: "Quando o ser humano se santifica ainda que pouco, o Altíssimo, nos céus, santifica-o muito".

Portanto, apesar de ser impossível ao ser humano construir um santuário para o Todo-Poderoso, D'us nunca exigiu isto dele. O Altíssimo pede que cada um de nós faça o que está a seu alcance. Quando cada um fizer tudo o que puder, isto será a moradia que D'us almejou e assim Ele, sem dúvida, fará pairar entre nós a sua Divina Presença.

Nossos sábios instituíram uma reza para o término de um estudo de um tratado de Talmud: "Eu me esforço no meu estudo e todos os outros trabalhadores fazem o mesmo - eu me esforço e sou recompensado e eles se esforçam sem receber nenhuma recompensa" (Berachot 28:2).

Esta reza necessita uma profunda análise. Será que um sapateiro, um alfaiate ou qualquer outro profissional não receberá o seu salário no final de um dia de trabalho ou ao concluir o serviço? Será que alguém duvida da recompensa reservada para quem a merece? Então, como dizemos nesta oração que os outros operários não recebem recompensa?

Não há dúvida que todo aquele que fornecer um trabalho será finalmente pago pelo serviço realizado. Porém, o pagamento será pelo resultado e não pelo esforço. Por exemplo, um alfaiate se esforça, durante vários dias, para cortar o tecido para a confecção de um terno, mas percebe que, infelizmente, os modelos talhados não ficaram de acordo com o tamanho desejado. O alfaiate não receberá o pagamento, apesar de ter trabalhado durante algumas horas ou mesmo alguns dias. Se ele não entregar o terno pronto, nas medidas encomendadas, ele não terá cumprido o seu compromisso. É certo que ele trabalhou e se esforçou durante vários dias, porém o que conta para o cliente é o resultado.

No mundo espiritual a coisa é bem diferente. Aquele que se esforça para estudar Torá e cumprir um mandamento, mesmo se não tiver êxito em seu esforço, receberá a recompensa. Isto porque tentou e se empenhou.

Na Ética dos Pais (cap. 4) consta a seguinte passagem: "Aquele que ensina uma criança é comparado à tinta usada para escrever em uma nova folha de papel, e aquele que ensina um idoso é comparado à tinta usada em uma folha de papel que já foi usada e seu conteúdo apagado". Isto significa que ensinar jovens é sempre muito mais vantajoso, pois estes terão facilidade em lembrar o que estudaram enquanto que os mais idosos encontrarão dificuldades de memorização.

Isto, a priori, pode causar um certo desânimo para os menos jovens que desejam estudar, enriquecendo sua bagagem espiritual. Ficarão desestimulados por pensar que não irão conseguir memorizar o estudo e todo o esforço será praticamente em vão.

De acordo com que foi analisado acima, concluí-mos que o que conta no judaísmo é o esforço. Mesmo se a pessoa não tiver sucesso nos seus empreendimentos, a recompensa pelo desempenho está garantida.

O Talmud conta que Moshé Rabenu teve dificuldades para confeccionar a Menorá do Santuário. O Todo Poderoso teve que lhe mostrar, numa visão profética, todos os detalhes que envolviam tal fabricação. Após perceber que Moshé não estava captando as orientações e que a tarefa parecia ser muito além do seu alcance, o Todo-Poderoso lhe ordenou atirar o ouro no fogo. Milagrosamente surgiu a Menorá Sagrada.

Por que D'us tinha que mostrar a Moshé todos os detalhes da fabricação da Menorá se, na realidade, ele não conseguiria confec-cioná-la sozinho, sem a intervenção Divina?

Porém, este é o ensinamento da Torá. Devemos saber que o ser humano tem que se esforçar para realizar o que está a seu alcance, o resto vem posteriormente por si só. Isto é válido para todas as mitzvot. Quando a pessoa se esforça para fazer o máximo, o resto fica por conta de D'us.

O Midrash Rabá nos relata: "Disse D'us ao povo de Israel: Façam-me uma abertura bem pequena, como o buraco de uma agulha, e eu abrirei para vocês portões por onde passem carruagens e carroças..." O Todo-Poderoso aguarda que a pessoa dê o primeiro passo; aí, então, Ele completa e faz o que for necessário.

Quando Moshé Rabenu presenciou a revelação de D'us no Monte Sinai, ele quis se aproximar para ver tão fantástica visão, querendo entender por que o arbusto não se consumia.

Rabi Yochanan diz que Moshé, naquela oportunidade, deu três passos à frente para contemplar a visão. Resh Lakish diz que ele apenas estendeu o pescoço. Disse D'us a Moshé: "Você se esforçou tanto para ver, que vou-lhe revelar o que quer saber". D'us, então, o chamou de dentro do arbusto ardente.

É difícil acreditar que Moshé mereceu uma tal revelação Divina apenas por ter feito um esforço tão pouco significativo - deu meros três passos ou, de acordo com a segunda opinião, apenas estendeu o pescoço. Um gesto tão simples e, em contrapartida, uma recompensa tão elevada?

Porém é isto mesmo que nossos sábios nos ensinam no Talmud (Meguilá 6:2): "Yagaati Umatsati" - Esforcei-me e por isso acabei encontrando um bom resultado. Metsiá, em hebrai-co, significa um achado. Aquele que se empenha, teoricamente deve receber algo proporcional ao esforço investido. Porém o Talmud nos ensina que aquele que se esforça acaba encontrando, isto é, bem além do que o esforço investido, como um achado que a pessoa encontra sem esforço nenhum.

Conta o Midrash que durante os nove meses que o bebê se encontra no ventre da mãe, um anjo lhe ensina toda a Torá. No momento do nascimento, o anjo dá um tapa na criança e a faz esquecer-se de toda a Torá. É muito difícil entender este comportamento tão estranho do anjo. Se a criança já se esforçou e estudou toda a Torá, porque tem que esquecer tudo o que o próprio anjo lhe ensinou?

O motivo pelo qual D'us faz questão que a criança estude a Torá inteira antes do nascimento é para nos lembrar de que a Torá não é algo estranho e distante da pessoa, pois a criança já estudou esta mesma Torá no ventre materno. A Torá é algo conhecido pela criança e foi parte integrante de seu ser durante nove meses. Ela irá posteriormente esquecer o seu estudo porque o que conta aqui neste mundo é, justamente, o esforço. A vida é um mistério que o ser humano tem que descobrir. Sabendo, de antemão, de toda a mensagem Divina - a Torá, a pessoa não teria mais nenhum motivo para continuar a vida.

A dificuldade que a pessoa encontra em realizar as tarefas e as boas ações, é uma indicação de que aquilo é necessário e muito importante para o cumprimento de sua missão e para o alcance da perfeição. Uma boa imagem para se entender isto é o efeito da fisioterapia.

Uma pessoa machucou o braço e este ficou imobilizado durante três meses. Sem dúvida, a pessoa terá muita dificuldade em mexer o braço após retirar o gesso. Na sua primeira sessão de fisioterapia, este indivíduo certamente reclamará de uma forte dor ao fazer os movimentos exigidos. Para se livrar de tal dor, ele sugere ao fisioterapeuta fazer os exercícios necessários com o segundo braço, que nunca foi machucado. Porém, obviamente, fazer os exercícios com o outro braço não resolveria o problema. O fato de sentir dor e ter dificuldades em realizar os movimentos no braço enfraquecido demonstra o quanto isto é importante para o seu restabelecimento. Quanto mais difícil e doloroso, mais rápida será a plena recuperação.

De forma geral, o ser humano encontra mais êxito nas coisas nas quais investiu um certo esforço do que nas que recebeu facilmente. As primeiras Tábuas da Lei entregues ao povo de Israel eram obra de D'us, fabricadas de um material precioso, pelo próprio Criador. Infelizmente elas não tiveram uma longa existência e foram quebradas por Moshé Rabenu ao ver que o povo de Israel tinha-se desviado do caminho de D'us, curvando-se ao Bezerro de Ouro. Na segunda vez, o Todo-Poderoso ordenou a Moshé que talhasse novas Tábuas e Ele escreveria os mesmos mandamentos que constavam das primeiras. Estas segundas Tábuas, obra da mão de Moshé Rabenu, existem até hoje. Isto reforça a idéia de que o fruto de um grande empenho só pode ser o sucesso e a perpetuidade.

A SAGRADA LOCALIZAÇÃO DO TEMPLO

O rei Salomão herdou de seu pai, David, inúmeras riquezas e, graças à sabedoria que lhe era peculiar, soube fazê-las prosperar. Cada um de seus projetos era sempre realizado com sucesso e sua glória se espalhou pelo mundo. “De que me servem todos esses tesouros se os anos estão passando sem que eu possa cumprir a promessa que fiz a meu pai?”, perguntava-se amargamente o monarca.

Mandei construir dezenas de palácios, mas ainda não consegui erguer o Templo em louvor à glória de D’us. O Senhor é Testemunha de que não é má vontade de minha parte se ainda não iniciei tão nobre construção. No entanto, não sei como reconhecer o local mais apropriado. Toda a Terra de Israel é sagrada, mas o solo no qual serão levantados os muros do Templo, deverá ser o mais precioso ao Criador”.

Uma noite, Salomão meditava novamente sobre o local em que deveria construir o Templo; sua promessa ainda por cumprir o incomodava e, em vão, lutava contra o sono. À meia-noite, não tendo ainda conseguido adormecer, decidiu sair para caminhar. Vestiu-se rápida e silenciosamente para não ser visto pelos serviçais e saiu do palácio.

Andou por uma Jerusalém adormecida, passando perto de grandes jardins e bosques, acompanhado somente pelo agradável ruído das folhas que farfalhavam ao vento, até que finalmente chegou ao Monte Moriá. A colheita recém terminara e do lado sul da montanha já estavam dispostos feixes de trigo cortados. Salomão apoiou-se em um tronco de oliveira, fechou os olhos e em sua mente começaram a desfilar as mais diversas localidades de seu reinado. Reviu colinas, vales, bosques que lhe pareciam destinados ao Templo e dezenas de outros locais por onde havia passado cheio de esperança, mas dos quais saíra decepcionado.

Repentinamente, o rei Salomão ouve passos. Abre os olhos e vê um homem carregando em seus braços um feixe de trigo. Um ladrão – pensou, rápido. Estava prestes a sair de seu esconderijo sob a árvore, mas conteve-se no último momento. “Esperemos para ver o que esse homem está tramando”.

O visitante noturno trabalhava rapidamente e sem ruído. Ele colocou o feixe de trigo no terreno vizinho, depois voltou para buscar outros e assim continuou até levar 50 feixes. Depois, olhou preocupado, em seu redor, como que para se certificar de que ninguém o havia visto e partiu. “Gentil vizinho”, pensou Salomão. “O proprietário do terreno não deve saber por que sua colheita diminui durante a noite...”

Mal teve tempo de refletir sobre como punir o ladrão, pois logo a seguir, outro homem apareceu. Prudente, o homem circundou os dois terrenos e, acreditando estar só, pegou um feixe de trigo de um terreno e o levou para o outro. Fez exatamente o que o outro fizera, só que levando o trigo no sentido inverso. Assim, ele fez com mais outros 50 feixes de trigo, partindo, depois, em silêncio.

“ Esses vizinhos se merecem ...”, pensou Salomão. “Imaginei que só havia um ladrão mas, de fato, o próprio ladrão acaba sendo, ele mesmo, roubado”. Sem delongas, no dia seguinte, Salomão convocou os dois proprietários dos terrenos. Deixou o mais velho esperando em uma sala, enquanto interrogava o mais jovem, com severidade:

“ Diga-me, com que direito você pega o trigo do terreno de seu vizinho? ”

O homem olha surpreso para Salomão e fica vermelho de vergonha. “Senhor”, responde-lhe, “eu jamais faria uma coisa dessas. O trigo que eu transporto me pertence e eu o coloco no campo de meu irmão. Gostaria de manter isso em segredo, mas já que fui apanhado, direi a verdade. Meu irmão e eu herdamos de nosso pai um campo que foi dividido em duas partes iguais, apesar de ele ser casado e ter três filhos, enquanto eu vivo só. Meu irmão precisa de mais fermento que eu, mas não aceita que eu lhe dê. É por isso que levo os feixes para ele, secretamente. Para mim, eles não fazem falta, enquanto que ele deles necessita”.

Salomão levou o homem para outra sala e chamou o proprietário do segundo campo:

“ Por que você rouba o teu vizinho”, perguntou asperamente. “Sei que você se apossa do trigo dele, durante a noite.”

“ D’us me livre de fazer uma coisa dessas”, protestou o homem, horrorizado. Na verdade, ocorre o contrário. Meu irmão e eu herdamos de nosso pai duas partes iguais de um terreno, mas eu, em meu trabalho, conto com a ajuda de minha esposa e meus três filhos, enquanto ele está só. Ele precisa chamar o ceifeiro, o debulhador, de forma que ele gasta mais dinheiro que eu e logo estará passando necessidade...Ele não quer aceitar um único grão de trigo de minha parte, e por isso eu levo para ele pelo menos alguns feixes, em segredo. Para mim não fazem falta, enquanto que ele os necessita”.

Então, o rei Salomão chamou novamente o primeiro homem e, emocionado, abraçou os dois irmãos e disse: “Vi muitas coisas em minha vida, mas jamais encontrei dois irmãos tão honestamente despreendidos como vocês. Durante anos vocês foram de uma bondade imensa e recíproca – e o que é mais importante – em segredo. Faço questão de lhes expressar toda minha admiração e peço que me perdoem por haver suspeitado que fossem ladrões, quando na verdade são os homens mais nobres da terra. Agora, tenho que lhes pedir um favor. Vendam-me seus terrenos para que eu construa o Templo Divino sobre esse solo santificado pelo amor fraterno de vocês dois. Nenhum local é mais digno do que esse, em nenhum outro local o Templo encontrará fundamentos mais sólidos.”

Os irmãos concordaram, de bom grado, com o pedido de Salomão. Deram-lhe o campo e o rei de Israel os recompensou fartamente. Em troca, deu-lhes terras mais vastas e mais férteis e fez anunciar, por todo o país, que o local sagrado para o Templo de D’us finalmente fora encontrado!

"Toda a Terra de Israel é sagrada, mas o solo no qual serão levantados os muros do Templo, deverá ser o mais precioso ao Criador"


Fonte:
Contes Juifs, Racontés par Leo Pavlát, Gründ. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O JUDEU E O ÁRABE

O árabe vai à loja do judeu para comprar sutiãs pretos.
O judeu, pressentindo bons negócios, diz que são raros e poucos e vende por 40 euros cada um.
O árabe compra 6, e volta alguns dias depois querendo mais duas dúzias.

O judeu diz que as peças vão ficando cada vez mais raras e vende por 50 euros a unidade.
Um mês mais tarde, o árabe compra o que resta por 75 euros cada.
O judeu, encucado, lhe pergunta o que faz com tantos sutiãs pretos.
Diz o árabe:
- Corto o sutiã em dois, faço dois chapeuzinhos e vendo para os judeus por 100 euros cada.
FOI AÍ QUE A GUERRA COMEÇOU....