sábado, 19 de março de 2011

Depoimento de alguns sobreviventes dos campos de extermínio nazistas

— Motke Zaidl e Itzhak Dugin


"No momento em que se abriu a última vala, reconheci toda a minha família. Mamãe e minhas irmãs. Três irmãs com seus filhos. Elas estavam todas lá. (...) Quanto mais se cavava para o fundo, mais os corpos estavam achatados, era praticamente uma posta achatada. Quando se tentava segurar o corpo, ele esfarelava completamente, era impossível pegá-lo. Quando nos forçaram a abrir as valas, proibiram-nos de utilizar instrumentos, disseram-nos: 'É preciso que se habituem a isso'; trabalhem com as mãos (...) Os alemães haviam até acrescentado que era proibido empregar a palavra 'morte' ou a palavra 'vítima', porque aquilo era exatamente como um cepo de madeira, era merda, aquilo não tinha absolutamente nenhuma importância, não era nada."



— Prisioneiro de Treblinka

"No interior do vagão, ficavam tão apertados que talvez nem sentissem frio. E no verão sufocavam, porque fazia muito, muito calor. Então os prisioneiros tinham muita sede, tentavam sair. (...) E algumas vezes faziam de propósito, muito simplesmente saiam, sentavam-se no chão, e os guardas chegavam e lhes davam um tiro na cabeça. (...) Uma vez os judeus pediram água, um ucraniano que passava proibiu de dar água. Então a prisioneira que pedia água jogou-lhe na cabeça a panela que segurava, então o ucraniano recuou um pouco, dez metros talvez, e começou a atirar no vagão, a esmo. Então aqui ficou cheio de sangue e de miolos."



— Franz Suchomel, SS Unterscharführer

"Treblinka nessa época funcionava a plena força. Estávamos então começando a esvaziar o gueto de Varsóvia. Em dois dias, chegaram cerca de três trens (...) Chegaram a Treblinka cinco mil judeus, e entre eles havia três mil mortos (...) Eles haviam aberto as veias, ou estavam mortos, assim... Descarregamos semimortos e semiloucos. (...) Nós os amontoamos aqui, aqui e aqui. Era milhares de humanos empilhados uns sobre os outros. Empilhados como madeira. Mas também outros judeus, vivos, esperavam ali há dois dias, pois as pequenas câmaras de gás já não eram suficientes. Funcionavam dia e noite, naquele tempo.



— Simon Srebnik

"Lembro-me de uma vez, eles ainda viviam, os fornos já estavam cheios, e eles ficaram no chão. Todos se moviam, voltavam a si, aqueles vivos... E quando eles os jogaram aqui nos fornos, todos estavam reanimados: foram queimados vivos (...) Quando vi tudo aquilo, aquilo não me tocou. Só tinha treze anos, e tudo o que havia visto até ali eram mortos, cadáveres. Jamais havia visto nada de diferente. (...) Eu pensava: deve ser assim, é normal, é assim. (...) As pessoas tinham fome. Iam e caiam, caiam... O filho tomava o pão do pai, o pai o pão do filho, todos queriam permanecer vivos (...) Pensava também: 'Se sobreviver, só desejo uma coisa: que me dêem cinco pães. Para comer... Nada mais."



— Filip Müller — sobrevivente das cinco liquidações do "comando especial" de Auschwitz.

"O gás, quando começava a agir, propagava-se de baixo para cima. E no pavoroso combate que travava então pois era um combate — a luz era cortada nas câmaras de gás, ficava escuro, não se via nada, e os mais fortes queriam sempre subir mais alto. Sem dúvida sentiam que quanto mais subissem, menos o ar lhes faltava. (...) E ao mesmo tempo quase todos precipitavam-se para a porta. Era psicológico, a porta estava lá... E é por isso que as crianças e os mais fracos, os velhos, encontravam-se embaixo, e os mais fortes por cima. Nesse combate da morte, o pai já não sabia que seu filho estava lá, debaixo dele."

A tragédia na aldeia de Khatyn

"O Homem Invicto"

Você não vai encontrar esta pequena aldeia bielorrusso em nenhum dos hoje mais detalhado mapa geográfico. Foi destruída pelos fascistas alemães na primavera de 1943.

O massacre ocorreu em 22 de março de 1943. Depois que os homens da SS e policiais chegaram na aldeia, eles a cercaram. Os habitantes da aldeia não sabiam nada sobre o fato que ocorreu pela manhã, onde um comboio motorizado fascista foi atacado por fogo em uma estrada a apenas 6 km de Khatyn. Como resultado, um oficial alemão foi morto. Os habitantes de Khatyn eram inocentes, no entanto a sua sentença de morte já tinha sido pronunciada.

Todas elas - jovens e velhos, mulheres e crianças - foram expulsos de suas casas em direção a um galpão. Os fascistas despertaram os doentes de suas camas com coronhadas. Eles não tinham misericórdia, nem para os velhos, nem para as mulheres com bebês nos braços. A família de Joseph e Anna Baranovsky com seus 9 filhos estava entre eles. Assim, foram Alex e Alexandra Novitsky com os seus 7 filhos. Da mesma forma, houve 7 filhos na família de Kazimir e Iotko Elena, e o menino mais novo tinha apenas 1 ano de idade. Vera Yaskevich também foi levada para o galpão e com ela o filho Tolik, de sete semanas de idade. A pequena Lena Yaskevich primeiro tentou se esconder no quintal, mas então decidiu tomar refúgio seguro na floresta. Balas fascistas não foram capazes de apanhar a menina correndo, portanto, um dos fascistas correu atrás dela e depois de ter ultrapassado a menina, a matou diante dos olhos do pai, que estava enlouquecido de terror. Entre os que pereceram, havia também duas pessoas de outras vilas que por acaso se encontravam em Khatyn no momento. Estes foram Anton Kunkevich da vila de Yurkovichi e Slonskaja Kristina da vila de Kameno.

Nenhum dos adultos conseguiram escapar. Apenas três crianças - Volodia Yaskevich, sua irmã Sonia e outro rapaz com o nome Sasha Zhelobkovich - foram capazes de se esconder dos fascistas. Quando todas as pessoas finalmente estavam no barracão, a porta foi trancada e os nazistas cobriram o celeiro com palha, encharcaram com gasolina e atearam fogo. Em um momento o galpão de madeira estava em chamas. As crianças choravam e sufocavam na fumaça. Os adultos estavam tentando resgatá-los. As portas do galpão não suportaram a força e a pressão das dezenas de pessoas e por isso caiu. Pessoas horrorizadas atingidas pelo fogo e com suas roupas queimando tentaram escapar das chamas, mas os nazistas calmamente as fuzilavam a tiro de rifles e metralhadoras. 149 pessoas, incluindo 75 crianças menores de idade foram queimadas vivas. O bebê mais novo tinha apenas 7 semanas de idade. A vila foi então saqueada e queimada.

As meninas de duas famílias diferentes - Maria Fedorovich e Yulia Klimovich - foram salvas por milagre. Elas milagrosamente conseguiram fugir do galpão e rastejar para a floresta. Carbonizadas, meio vivas, elas foram encontrados pelos habitantes da aldeia de Khvorosteny, do conselho da aldeia Kameno. Infelizmente, esta aldeia também foi posteriormente queimada e as duas meninas foram mortas.

Na aldeia de Khatyn apenas duas crianças sobreviveram. Eles são Victor Zhelobkovich de sete anos de idade e Anton Baranovsky de 12 anos, que estavam no celeiro. Uma jovem de nome Anna Zhelobkovich também estava no galpão. Juntamente com algumas das outras pessoas horrorizadas com suas roupas queimando, ela tentou sair do galpão, que estava em chamas. Ela estava segurando firmemente a mão de seu filho de Vitia. Um momento depois, ela foi fatalmente ferida e como ela foi caindo no chão, cobriu o filho com seu corpo. A criança foi ferido no braço. Ele se deitou no chão sob o cadáver de sua mãe até os nazistas finalmente deixarem a aldeia. Quando Anton Baranovsky fugiu do celeiro, ele foi ferido na perna por uma tiro. E assim os fascistas o confundiram com um menino morto.

Habitantes de aldeias vizinhas pegaram todas as crianças feridas e com queimaduras graves e levaram-as para um orfanato na cidade Pleshinitsy, onde foram criados após a guerra.

O único testemunho de um adulto no massacre Khatyn, é de um ferreiro de 56 anos de idade, Joseph Kaminsky, que também ficou ferido e queimado, mas recuperou a consciência, tarde da noite, quando os fascistas já tinham ido embora. Ele teve de sofrer um duro golpe, no entanto. Entre os cadáveres dos outros moradores, ele encontrou seu filho. Ele foi mortalmente ferido no abdômen e teve queimaduras graves. O menino morreu nos braços de seu pai.

"Joseph Kaminsky"

Esse momento trágico na vida de Joseph Kaminsky é a base da unica escultura do complexo memorial: "O Homem Invicto"

A tragédia da Khatyn não é apenas um episódio ocasional desta guerra. É um dos milhares de fatos, que atestam a existência da política de genocídio em relação à população alvo da Bielorrússia. E os nazistas estavam perseguindo essa política durante todos esses anos de ocupação alemã. Centenas de catástrofes semelhantes ocorreram nos três anos (1941 - 1944) na ocupação do solo bielo-russa.



Traduzido: Daniel Moratori (avidanofront.blogspot.com)
Fonte:

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Rabi Moshé BEN NACHMAN (NACHMÂNIDES) - Barcelona, 4955-5030 (1195-1270)

Carta endereçada por Rabi Moshé ben Nachman (Ramban) a seu filho, para fortificar-lhe a humildade.  O autor aconselha seu filho a reler esta carta todas as semanas e ensiná-la a seus filhos, para assim se acostumarem, desde tenra idade, a temer a D-us e lhe assegura que no dia que ler esta carta, todos os seus pedidos serão atendidos.




"escuta, meu filho, as lições de teu pai e não rejeites o ensino de tua mãe".
       
Acostuma-te a dirigir-te a qualquer pessoa, sempre calmamente. Assim fugirás da ira, defeito grave que conduz ao pecado. Nossos sábios nos disseram: "Aquele que se irrita, todas as formas de inferno sobre ele se abatem", como foi dito no Eclesiastes: "Afasta a cólera de teu coração e dissipa todo mal de tua pessoa".

Quando tiveres dissipado a cólera de teu coração, deverás cultivar a humildade, que é a melhor de todas as virtudes, como está escrito: "A humildade conduz à crença em D-us. 

Porque sendo humilde, te interrogarás sem cessar sobre tua origem, sobre teu caminho e terás consciência da fragilidade de tua vida e, também, após a morte.

Te lembrarás que após a vida terrestre, deverás prestar contas diante do Rei dos reis, Bendito seja Ele...

Assim que meditares sobre estas verdades, temerás teu Criador e serás protegido de erros. Graças a estas virtudes, aceitarás e serás feliz com teu destino.

A humildade te ensinará a respeitar todas as pessoas, a considerá-las, a afastar-te do erro. A Graça Divina habitará em ti e Seu Esplendor te acompanhará através do mundo vindouro.

E agora, meu filho, saiba e reflita que aquele que sente orgulho em seu coração sobre seus semelhantes, está se rebelando contra o Rei Divino, pois se vangloria com as vestes do Rei, conforme está escrito no Salmo: "D-us é Rei, Sua veste é a Majestade".
De que o homem poderia orgulhar-se?
- Da riqueza? É D-us que herda e enriquece.
- Da honra? "A riqueza e a honra estão diante de ti".

E como irás orgulhar-te com a honra do teu Criador?
- Da sabedoria? Ele, Bendito Seja, retira a palavra dos fiéis e apreende o conhecimento dos sábios.

Assim, tudo é igual perante o Senhor. Na sua fúria ele rebaixa os orgulhosos e conforma Sua vontade, eleva os humildes. Assim sendo, rebaixa-te e D-us te elevará.

Por isso eu te explicarei como conduzir-te na virtude da humildade:
Expressa-te sempre calmamente, a cabeça encurvada, teus olhos fixando a terra e teu coração para o céu. Abaixa teu olhar perante teu interlocutor e considera todo homem como teu superior: se for um sábio ou um rico, tu deverás respeitá-lo. Se ele for pobre e tu mais rico ou mais sábio que ele, pensa em teu coração que ele é mais inocente e tu mais culpado. Se ele peca é por inocência, enquanto que tu pecas propositalmente.

Em todas as circunstâncias, em todas as tuas palavras, ações e pensamentos, pensa que estás diante do Todo Poderoso e Sua Graça Divina sobre ti, pois Sua Glória preenche o mundo.

Exprime-te com temor e respeito, como o escravo perante seu mestre. Envergonha-te de qualquer homem. Se uma pessoa te interpelar, não respondas em voz alta, mas calmamente como quem está diante de seu mestre.

Estuda sempre a Torá visando cumprí-la. Ao deixar o livro, procura no estudo aquilo que possas aplicar imediatamente. Examina teus atos de manhã e à noite e todos os dias da tua vida serão de introspecção.

Afasta de ti todas as preocupações mundanas no momento da prece. Prepara teu coração diante do Criador e purifica teus pensamentos. Pensa nas palavras antes de pronunciá-las.
Este será teu comportamento todos os dias da tua vida e não pecarás. Assim, tuas palavras, teus atos e teus pensamentos serão corretos. Tua prece será pura, bem dirigida e aceita perante o Rei, Bendito Seja Ele, conforme está escrito:  "Tu preparas seus corações, Tu os escutas"
                                                                                   ***
Lê esta carta uma vez por semana, nunca menos, afim de cumprí-la e andar no caminho do Todo Poderoso.  Assim, triunfarás em todos os teus caminhos e serás merecedor do Mundo Vindouro reservado aos justos. Todos os dias que leres esta carta, tua prece será atendida pelos Céus quando pedires por algo, para sempre. Amén

Memórias De Uma Sobrevivente de Auschwitz



Desde que retornei de Auschwitz, em maio de 1945, senti que tinha que escrever o que aconteceu com minha família e comigo – todas as minhas experiências. Só a lembrança daquilo traz-me dores e lágrimas. Tentando permanecer sã, fui adiando isto. Hoje, se passaram mais de 50 anos desde o genocídio planejado por Hitler contra nosso povo. Sinto-me forçada a registrar da forma que me lembro. O tempo está acabando. Tenho 67 anos. Meus filhos, a quem tentei educar da forma mais normal possível, e com quem tentei não falar sobre o passado, hoje são homens crescidos. E têm o direito de conhecer a história de sua família. Portanto, dedico minhas memórias a meus maravilhosos filhos e netos.
Veronika Schwartz, Montreal, 1994.

Nasci em seis de junho de 1927, na Hungria, em uma pequena cidade chamada Kisvárda, no condado de Szabolcs. A população total em 1941 era por volta de 15.000. A população judia era de cerca de 4.000. Naqueles tempos, os bebes nasciam em casa, com o auxílio de uma parteira e, provavelmente, de alguns membros da família. O meu tio Mikós Ösztreicher me disse que minha mãe tinha ficado grávida sete vezes; quatro permaneciam vivos.

O nome de meu pai era Schwartz Mór. O nome de minha mãe era Ösztreicher Irén. Meu irmão, Zoltán, era o mais velho, nascido em 19 de novembro de 1923. Minha irmã, Klára, era dois anos mais velha do que eu. Minha irmã, Éva, era dois anos mais jovem que eu.

Meus pais tinham um armazém em Fö utza, que significa a rua principal. Vendiam móveis, material de jardinagem, sapatos e roupas prontas. Trabalhavam muito duro. A vida não era fácil. Tanto quanto posso me lembrar, senti pena de minha mãe. Ambos os seus joelhos eram machucados, mas nunca desejou falar sobre uma operação, temendo que não fosse bem sucedida e que pudesse terminar pior do que antes. Só continuava a colocar bandagens nos pés o dia todo, tentando fazer o melhor para atender os fregueses e, naturalmente, sua família. Ela cozinhava antes de ir para a loja. (...)

Não me lembro de ter tido brinquedos, como uma bicicleta ou bonecas, mas não me lembro de ter sentido falta deles também. Éramos uma família. A alegria era ver minha mãe segurando as mãos de meu pai, sorrindo. Nunca estávamos entediados. Sempre havia coisas a fazer: regar flores, limpar o jardim, jogar bola ou a escola (eu era a “professora” e reunia as crianças mais jovens e brincava de escola com elas), trazer lenha para a casa, alimentar o cão, conversar com meus amigos na rua ou com nossos inquilinos ou vizinhos. Gostavam muito de nós. Estávamos em casa. Apesar de modesta, era nosso castelo. Como jovens crianças, tudo que precisávamos era de um monte de areia para ficarmos ocupados e felizes. Amávamos também nosso país. Lembro-me que quando soldados Húngaros a cavalo passavam pela rua próxima, corria para juntar um buquê de flores de nosso quintal e corria toda distância para dar-lhes flores. (...)

Tudo mudou no ginásio. Senti o anti-semitismo. Não me lembro do nome de minha professora, mas chamava as garotas gentias pelos seus nomes e as garotas judias pelo nome de suas famílias. Não podia me concentrar, isso me preocupava muito. Comecei a sentir o ódio. Isto foi em 1939 e tinha somente doze anos. Minha avó costumava dizer como era horrível para o povo judeu. Como, durante uma rebelião ou revolução, sempre colocavam a culpa nos judeus. Eu só sentia pena por terem sofrido tanto.

O ódio somente aumentava, as coisas não melhoravam. Um dia, minha avó veio a nossa casa gritando que um dos seus vizinhos tinha ameaçado matar meu tio Miklós. Eu sabia onde meu tio estava, corri todo o caminho, cinco ou seis quilômetros, para achá-lo em uma vila próxima, chamada Ajak. Ele se escondeu, mas para o Grande Feriado foi à sinagoga. Os gendarmes (a polícia de elite) estavam procurando por ele e entraram na sinagoga. Meu tio escapou por uma janela, e a Sra. Rooz, que era uma parente distante, escondeu-o em sua casa. Quando as coisas acalmaram, conseguiu embarcar em um navio e escondeu-se no carvão. Chegou ao Canada em 1939 como um clandestino, quase morto. Nunca soube porque os gendarmes queriam prendê-lo ou porque o homem (seu nome era Orgován), que supostamente era seu amigo, queria matá-lo. Tudo que sabia era que meu tio vendia terras naquele tempo. Talvez algum negócio de terras não o tenha agradado. Toda nossa família ficou contente quando recebemos uma carta do Canadá de nosso tio.

Parecia que, para a população judia, a vida estava ficando bem apavorante. Meu pai tinha que fazer trabalhos forçados. Por sorte, foi desqualificado devido a uma hérnia. Meus pais decidiram que deveríamos aprender uma profissão ao invés de continuarmos nossa educação. Pagaram a um relojoeiro bem conhecido para ensinar meu irmão a consertar relógios. Minha irmã mais velha estudou para ser cabeleireira, também de forma privada, o que era bem caro. Meu irmão e irmã terminaram seus estudos. Meus pais compraram uma bicicleta para minha irmã. Tinha fregueses particulares e pedalava para suas casas. Era muito popular, algumas pessoas gostavam muito dela. Encontraram uma costureira para me ensinar a costurar. Tentei, mas além de aprender uns poucos pontos diferentes, nunca consegui terminar um vestido.

Enquanto isso, meus pais sabiam que a vida para nós estava piorando. O anti-semitismo era muito pavoroso. Sabendo que, acontecesse o que acontecesse, precisaríamos de comida, compraram várias vacas, um cavalo, cabras, gansos, patos e galinhas. Neste ponto não fazia muitas costuras, ajudava muito com os animais. Adorava andar a cavalo. Ordenhava as vacas e alimentava o resto dos animais. Meu avô, Lajos, vinha todos os dias para ajudar e tínhamos alguns empregados.

A situação política estava piorando, especialmente para nós, o povo judeu. Minha mãe fazia visitas mais freqüentes ao Rabino, para rezar por nossa segurança e bem-estar e para termos paz. O Rabino nos abençoava, dizia-nos para rezar, e para ter fé em D-us [nota: judeus ortodoxos não escrevem o nome do Senhor de forma alguma, usando este tipo de recurso]. Sempre a acompanhava nessas visitas.

Manter o negócio aberto não era uma tarefa fácil. Mas era difícil conseguir mercadorias têxteis como seda, linho, algodão e flanela. Minha mãe nunca desistiu. Viajava para Budapeste para encontrar seus fornecedores e tinha confiança que não voltaria de mãos abanando. O nome da firma de negócios ao atacado era Mandel Gustav e Sandor. Ela não podia deixar de falar dessas pessoas, como tinham sido boas com ela. Por ter os joelhos doentes, desejavam ajudá-la de forma especial. Vendiam-lhe mercadorias têxteis. Foi convidada para a casa deles. Um dia nos disse, “vi um belo banheiro de azulejos, isto é o que teremos um dia. Vamos instalar encanamento em nossa casa”. Nunca abandonamos a esperança. De fato, tínhamos eletricidade instalada e um novo piso de cerâmica na cozinha.

A despeito de nossas esperanças e preces, o ódio parecia piorar. Acender velas nas noites de sexta-feira era arriscado. Nossas janelas foram quebradas. Pedras foram atiradas na casa de nossos avôs. Meu pai entaipou algumas de suas janelas. Os bandidos das cruzes flechadas ficavam nos insultando. Um homem jovem veio a nossa loja como um animal selvagem, xingando, pegando caixas de sapatos e jogando-as na rua. Minha mãe implorou-lhe para que levasse o que queria, mas o ódio era muito profundo. Tremíamos de medo.

Meu irmão foi convocado para o Exército. Meus pais não puderam vê-lo ir. Minha mãe fez uma jarra de café muito forte e ele bebeu tudo, então chamaram o doutor da família e disseram que ele não estava bem. O doutor ouviu o seu coração e escreveu uma carta dizendo que era incapaz de ir para o serviço, devido a uma doença cardíaca. (...)

Leis e regras cruéis foram-nos impostas dia após dia. Era muito doloroso perceber que tínhamos sido extremamente otimistas por muito tempo. Era chocante quando visitava um dos nossos inquilinos, a família Posner, de origem russa. Tinham uma empregada, uma jovem cigana. Gostava de falar com ela, era sempre alegre e feliz. Perguntei, “Onde está ela?”. Disseram-me que tinha sido levada embora a força e afogada com muitos outros. “Como é possível matar pessoas inocentes. Devem ter sido enviados para trabalhar em outro local”, disse à Sra. Posner. Ela me disse suavemente, “queria que você estivesse certa”.

Não havia mais razão para ser otimista. Éramos proibidos de ouvir o rádio. Quando caminhava pela rua e tentava ouvir as notícias, fui apedrejada. Minha mãe adorava ir ao banho ritual (mikvah). Era um dos prazeres da vida dela, mas foi proibido.

Ouvia um monte de sussurros. Ouvi que falavam de uma rota de fuga, mas que não seríamos capazes de usá-la. Era muito tarde. Os judeus não podiam viajar. Minha mãe nunca concordaria com uma rota de fuga, a menos que toda a família pudesse escapar junta. Isto era impossível. Levamos para casa um monte de mercadorias (móveis, tecidos) de nossa loja. Cavamos buracos nos telheiros e enterramos os tecidos e roupas em caixas de madeira.

Sempre que meu pai ia a sinagoga, voltava para casa com péssimas notícias. Ouviu que um eminente doutor e toda a sua família tinham cometido suicídio. Em 19 de março de 1944, passou a ser compulsório usar uma estrela de David amarela. No mesmo dia, o exército alemão invadiu a Hungria. Além das expectativas dos alemães, os húngaros cooperaram integralmente e os receberam de braços abertos. Sentíamo-nos em uma armadilha.

Lembro-me do Sr. Fekete, que vinha a nossa casa ler o medidor de eletricidade. Quando entrou, olhou para todos nós. Começou a caminhar em direção de meus pais. Ele gostaria de falar-lhes, mas foi sobrepujado pelas emoções e começou a chorar. Só ficou chorando e saiu. Sabia que algo terrível iria acontecer. Certo como um relógio, poucos dias depois, um jovem veio a nossa casa e a casa de meus avós. Este jovem vivia em nossa rua. Minha avó e a avó dele eram amigas uma da outra. Seu nome era Bajor e tinha sido autorizado a inventariar nossos pertences. Não levou muito tempo para descobrir que teríamos que deixar nossas casas e ir viver juntos em um gueto, em Kisvárda. Todos tentamos nos consolar o melhor possível. Meus pais acharam que meu irmão deveria se alistar em um campo de trabalho. Talvez tivesse uma chance maior de ficar vivo. Aceitou a sugestão e partiu para se alistar. Foi de quebrar o coração vê-lo partir.

Meus pais deram nosso gado em confiança para as pessoas que usavam nossa propriedade como caminho para chegar à cidade. Mesmo que tivessem prometido tomar cuidado de todos os animais, era duro deixá-los para trás – os filhotes de cabrito que amava; o belo cavalo que adorava cavalgar; as vacas, gansos, patos e galinhas. Minha mãe trabalhou freneticamente preparando uma base de sopa, uma mistura de farinha e óleo ou gordura de galinha. Disse que enquanto pudéssemos conseguir um pouco de água, pelo menos poderíamos fazer uma sopa. Vi quando ela quebrou e começou a chorar. Implorei para que não chorasse. Ela disse: “não choro por mim, choro por todos vocês. Eu os amo muito”. Tentei dizer a que a nossa partida era só temporária. Era ingênua. Sabiam quão irracionais as pessoas ficavam com o ódio, inveja, vingança e poder, e ficaram com muito medo.

Meus pais trabalharam muito duro. Nunca fumaram ou beberam e economizavam cada centavo. O costume era dar a uma filha um dote quando se casava. Eles compravam pedras preciosas, diamantes e outro para nós três, para que quando nos cassássemos tivéssemos condições de começar uma vida nova sozinhas. Meu pai chamou-nos e todos descemos ao porão. Ali removeu alguns tijolos da parede, escondeu as jóias em uma garrafa e consertou a parede. Assim todos sabíamos onde estavam. Escondeu algumas jóias no sótão. Mesmo nossos vizinhos, os Fishers, do outro lado da rua, esconderam algumas jóias em nosso sótão.

Em meados de abril de 1944, fomos levados e aprisionados no gueto em Kisvárda. Fomos levados sob as condições mais cruéis pela gendarmerie Húngara. Todos estávamos apertados em um só quarto – minha avó, meus pais, minha tia Margit, tio Ernö e minhas duas irmãs, Klára e Éva. Abaixo de nosso quarto ficava um porão. Levavam para lá as pessoas para serem interrogadas, para descobrir onde tinham escondido o seu dinheiro e posses. Era sempre o chefe da família. Inicialmente torturaram os muito ricos e, mais tarde, a classe média. Era horrível ouvir os gritos.

Também nos preocupávamos com nosso pai. A comida era muito pouca e meu pai costumava sair escondido às 5 da manhã, antes do nascer do sol. Eu não sabia, mas uma família gentílica dava-lhe ovos, leite e pão. Ele corria um imenso risco para melhorar a qualidade de vida para sua família. As pessoas que lhe davam comida também eram muito especiais, desprendidas, gentis e desejosas de ajudar os necessitados. Era um ato corajoso, podiam entrar em grandes problemas ao ajudar judeus. Boas pessoas como elas nos davam incentivos para continuar tentando o máximo e prosseguir com nossas vidas. Era um esforço conjunto fazer o melhor que podíamos. Ajudávamos uns aos outros, compartilhando as tarefas domésticas. Éramos livres para ir para qualquer lugar dentro do gueto. Andava muito com minhas irmãs e todo mundo na família, conversando com nossos amigos e vizinhos, tentando descobrir novidades políticas. (...)

Mais uma vez, as novas eram pavorosas. Mais uma vez estraçalharam nossas esperanças que a guerra logo terminaria e que voltaríamos para nossos lares e negócios, recomeçando nossas vidas. As pessoas estavam dizendo que os alemães levariam todos para campos de trabalho. O gueto ficou como uma capela funerária. As pessoas choravam abertamente. Todos estavam apavorados. Não fazia sentido que a Alemanha quisesse avós, grávidas, bebês, pessoas doentes e crianças para trabalhar para eles. Na mente de todos havia a pergunta: “o que acontecerá a nós?” Da minha parte, fui educada no respeito a todos, seja qual for a sua religião. Assim era difícil entender a complexidade do ódio humano. Não acreditava que nos levariam para trabalhar. Minha avó, preocupada, perguntou-me: “que tipo de trabalho posso fazer para eles? Sou velha demais para trabalhar”. “Bem”, eu disse, “você pode ajudar na cozinha, descascando batatas, por exemplo ou no hospital, preparando ataduras. Todos podemos trabalhar”. (...)

Minha família e eu fomos levados em 31 de maio de 1944. Oitenta pessoas foram arrebanhadas em cada vagão. Não nos permitiram levar nada, somente as roupas que vestíamos. Havia um balde d’água, as portas fechadas e a jornada em direção a um destino desconhecido começou. Meu pai, minha mãe, minha avó, minhas irmãs, Klára e Éva, a tia Margit, tio Ernö – todos estavam muito quietos, tristes e sem palavras. Tentei muito alegrá-los. Encontrei um pequeno local de onde era possível olhar para fora e ver a paisagem. Pedi a todos para vir e ver. Não importa o quanto tentasse, ninguém se interessou. Minha avó ficava repetindo, “sou velha demais para trabalhar”. Se soubesse o que aconteceria com eles, eu teria passado cada minuto beijando e abraçando-os e fazendo o máximo para não ser separada deles.

Finalmente, o trem chegou em Birkenau, Polônia. As portas abriram. De alguma forma, fui empurrada para fora, de tal forma que me encontrei em pé sozinha e uma longa fila estava se formando atrás de mim. Olhei tudo em volta e podia ver que não havia ninguém de minha amada família. O medo e o pânico me atingiram. Chorei e me atirei ao chão, pensando que não levantaria, a menos que fosse colocada junto com minha família. Não me importava se me fuzilassem. Atrás de mim estavam as duas garotas Freed, de nossa rua, Vár utza. Estavam chorando, mas praticamente me levantaram e imploraram para que ficasse de pé ou seria fuzilada. Disseram que sua mãe estava grávida e não a podiam ver em lugar algum.

A longa fila foi formada e tivemos que começar a marchar. Era cerca de três quilômetros até Auschwitz. No caminho, vimos o arame farpado com a cerca de segurança de alta voltagem. Vimos um monte de pessoas dentro. Era um local medonho. Algumas pessoas caminhavam com longos paus e estavam batendo em outros. As roupas dessas pessoas eram trapos. Não podíamos imaginar o que este local poderia ser. Algumas pessoas diziam que deveria ser um asilo mental. Mas como podiam tratar doentes mentais de forma tão má?

Logo nossa marcha terminou e nos achamos no mesmo lugar – o Campo de concentração de Auschwitz. Este foi o pior dia de toda minha vida. A dor no coração de não saber o que aconteceria com minha família. Onde estavam? Sempre procurava com meus olhos tão longe quanto podia ver, em todas as direções, chegando a imaginar que podia ver meu pai.

As pessoas estavam exaustas mental e fisicamente. Começou a chover e estava frio. Durante todo o dia não recebemos comida, mas tínhamos que ficar na fila e esperar. Finalmente, um oficial SS veio e disse-nos que tentaria conseguir um pouco de chá. Isto não era um conforto para mim. Eu era uma alma perdida.

Mais tarde tivemos que ser desinfetados. Neste lugar, aparavam nossas cabeças. Tínhamos que nos despir. Faziam-nos passar por torturas humilhantes. Nossas roupas foram levadas e tínhamos que nos vestir de uma pilha de trapos. Enquanto andava por aquela área de desinfeção, como um milagre, observei minha prima em primeiro grau do lado paterno, Klein Magda. Ela reparou em mim ao mesmo tempo. Me disse que não tinha ninguém da sua família e que deveríamos tentar ficar juntas. Esperava que pudéssemos fazer isso.

Mais tarde fomos levadas para o C Lager (campo C). Permanecemos fora. Uma kapo (isto é, uma prisioneira feitora, designada para supervisionar um determinado grupo de trabalho de prisioneiras) veio falar conosco. Nos disse o seu nome, Toska. Acredito que fosse uma garota polonesa. Parecia ser muito honesta. Perguntou se tínhamos alguma pergunta. Muitas pessoas fizeram a mesma pergunta, “quando nos reuniremos com os membros de nossas famílias?” Com lágrimas nos olhos, apontou para o crematório. Passou um momento difícil ao falar. Depois de recuperar a compostura, continuou: “como vocês, fui trazida aqui com minha família, mas agora, estou sozinha”. Nos alertou para ficarmos alertas; não seria fácil ficar vivas. Depois disso, fomos arrebanhadas para dentro do barracão. Ali estava outra Kapo; seu nome era Éva. Era malvada. Uma garota judia bem apessoada, se comportava de forma desavergonhada, usando um pau para controlar as pessoas.

Fomos espremidos em uma posição sentada muito apertada para a noite. Em minha miséria, decidi seguir o conselho do Rabino: ter esperança e rezar. A cada noite, recitava preces em hebreu. Sabia-as bem e incluía cada membro de minha família e, naturalmente, Aisnley [o namorado de Vera]. De alguma forma, meu passado religioso deu-me forças. Mas também tinha um sentimento de culpa, “por que eu? Por que estou viva e minha família não?”. Me atormentava.

Antes do alvorecer, fomos acordadas por um alto som de apito. Tínhamos que correr e nos alinhar para inspeção. Duas vezes por semana, tínhamos que marchar nuas para dentro de um barracão, em frente a médicos, Mengele e alguns outros, para a seleção. Se alguém fosse removido da fila, isto significava a morte. Assim, tentávamos parecer o melhor possível.

Recebíamos uma fatia de pão e cerca de uma colher de chá de marmelada na manhã. À tarde, fazíamos um turno para pegar uma panela de comida, que não tinha sabor, muito pouco. Não havia pratos nem talheres. Desta forma, fazíamos uma fila e uma depois da outra bebíamos do mesmo copo. Muitas pessoas, inclusive eu, estavam pegando a doença das gengivas [escorbuto]. À tarde, novamente, tínhamos que ficar em fila por duas horas para sermos contadas. Algumas vezes vi corpos queimados, como carvão, contra a cerca. Era uma visão horrível.

Uma manhã, depois da contagem, deitei no chão. Um soldado SS pisou no meu estômago. A sobrevivência por mais um dia era uma conquista.

Cerca de três ou quatro semanas mais tarde, numa manhã, estávamos entrando em uma fila para termos nossos números de identificação tatuados nos antebraços, quando minha prima Magda foi removida da fila. Mais uma vez me senti perdida. Queria muito ficar com ela, era muito boa comigo. Ajoelhei-me e fui até uma janela, passei por ela e achei Magda. Entrei na fila atrás dela. Não tínhamos idéia do que aconteceria conosco, mas estávamos juntas mais uma vez e isto significava muito para ambas. Havia dezesseis pessoas. Entramos em pequenos vagões puxados por um trator. Depois de viajar por cerca de três horas e meia, chegamos em uma fazenda.

Foi-nos dado abrigo em um telheiro. Dormíamos na palha no chão. Mais tarde, colocaram alguns catres para nós. Quando estava ficando escuro, a porta era fechada e ficávamos trancadas. As 6:00 da manhã as portas abriam de novo. Recebíamos alguma comida e eram levadas por um caminhão até os campos, para trabalhar. Tínhamos que colher trigo e aveia, arrumar em feixes, amarrá-los e colocá-los em pé, como se formando pirâmides. Tínhamos dois supervisores: um homem, que era gentil. Se alguém tivesse dificuldade em fazer o trabalho, tentava ajudar e nunca ficava zangado. A mulher não gostava de nenhum de nós. Ouvi-a dizer ao supervisor que éramos judeus e que não merecíamos nenhuma ajuda. Todos tentamos dar o máximo de nós, este local era definitivamente melhor que Auschwitz. Aos domingos, para o jantar, nos davam purê de batatas com uma fatia de presunto, em um prato normal. Isto significava muito para todos.

Um dia, o proprietário cavalgou até o lugar onde trabalhávamos. Me chamou e outra garota para falar com ele. Nos disse que ao invés de trabalhar nos campos, iríamos trabalhar na cozinha. A outra menina tinha só treze anos. Normalmente eu a via engraxando sapatos. Acabei ajudando às duas empregadas, descascando vegetais, frutas e assim por diante. Era melhor que trabalhar nos campos. Enchia minhas roupas com as cascas das maçãs que descascava. Algumas vezes conseguia esconder algumas cenouras ou pequenas maçãs; eram compartilhadas com todos.

Via a família indo para a igreja nas manhãs de domingo. Lembrava-me de como costumava ir para a sinagoga junto com meus pais, irmão, irmãs e outros membros de minha família. Não tinha inveja deles, mas me magoava muito. A injustiça era tão horrenda. Aqui estava eu, trabalhando como uma escrava. Por quê? Não tinha feito nada de errado. Tinham nascido na fé cristã. Por acaso, eu nascera na fé judaica. Tinham tudo que possuíam. Tudo tinha-nos sido confiscado. Tinham sua família viva. Não sei o que aconteceu com a minha. Como se podia permitir que todos esses crimes acontecessem no século XX, sem que nem uma só nação tentasse nos salvar? Onde estava Deus? Teria Ele dormido? Estava perdendo minha fé na humanidade. Questionava a existência de Deus. Afinal de tudo, tinha visto o crematório soltando fumaça o dia todo em Auschwitz. As crueldades sádicas que testemunhara davam-me razões para acreditar que havia muito poucas chances de que veria todos de minha família de novo.

Depois de trabalhar na cozinha por cerca de três meses, escutei as duas empregadas mostrando preocupação sobre o quão próximo os russos estavam e sobre o que aconteceria com eles. Para nós, isto significava uma esperança, de que nossa liberdade se aproximava. (...)
Os russos estavam se aproximando. Tínhamos visto explosões de artilharia bem próximas. Nossas vidas estavam sob risco elevado. Todos estavam com medo. Continuamos a trabalhar mais umas duas semanas, mas uma manhã, ao invés de sermos levados para o trabalho, fomos transportados de volta para Auschwitz. Era muito difícil ainda ter esperança. As pessoas em Auschwitz pareciam esqueletos e tinham inveja por termos passado tempo trabalhando em uma fazenda. Nos disseram que tinha irrompido uma epidemia de tifo. Alguns dos barracões tinham sido queimados até as fundações. As pessoas morriam como moscas. Não podia achar palavras para explicar a intensidade do crime. Por aquela época, parecia que éramos os remanescentes de uma raça. Ficava dizendo a mim mesma para não desistir – se alguém de minha família tivesse sobrevivido, poderiam precisar de mim. Este sentimento de responsabilidade para minha família e com nossa raça mantinha-me lutando para ficar viva.

A fome, sujeira e tortura continuavam. Uma manhã, para meu espanto, recebi um pequeno pacote. A Kapo que me deu, disse que tinha que levar de volta uma resposta. Eu o abri: havia um pouco de pão, um lápis e um bilhete. O conteúdo do bilhete era o seguinte: “nasci na Polônia. Não sou judeu. Expressei publicamente a oposição ao governo; por isso fui enviado para Auschwitz. Sou um médico. Gostaria de saber se você se casaria fora de sua fé”. Não demorei muito a responder. Em meu coração, sabia que não casaria fora de minha fé, por respeito aos meus pais. Também, não tinha ainda abandonado a esperança com relação a Ainsley. Assim, expressei meus agradecimentos a ele e disse minhas razões. Nunca mais ouvi dele de novo, mas foi um tremendo apoio moral acreditar que havia algumas pessoas decentes lá fora e que eu deveria fazer o máximo para sobreviver.

Umas poucas semanas depois, Magda e eu, junto com muitas outras pessoas, fomos levados para outro campo de concentração. Quando chegamos, dois Kapos estavam encarregados de levar-nos para dentro do campo. Para nosso azar, tomaram liberdades por sua posição de superioridade, nos abraçando e agarrando. Foi embaraçoso e fiquei apavorada. Disseram que lembrávamos-lhes suas irmãs. Logo uma fila foi arrumada e caminhamos para o campo.

Quando entramos no campo, foi uma experiência pavorosa. No meio do terreno havia uma imensa vala. Tivemos que nos alinhar em um dos lados. Em nossa frente, no outro lado, os soldados SS estavam de pé, com seus fuzis apontando para nós. As pessoas ficaram em pânico, temendo que estivéssemos em frente a um pelotão de fuzilamento. Tentei acalmar as pessoas na minha frente com a explicação de que, se quisessem nos matar, isto teria sido feito em Auschwitz. No fim, era só um treinamento militar.

Fomos levados a um prédio onde tivemos que tomar uma ducha e foram-nos dados outras roupas, uniformes com listras cinzentas e azuis. Nós fizemos uma fila para a comida, que foi dada em um prato. Era mais no estilo militar e parecia muito melhor que Auschwitz.

Cedo a noite senti-me cansada e deitei-me em uma dos catres debaixo de um beliche. Enquanto descansava, minha prima correu e estava excitada. Disse-me que dois dos Kapos tinham trazido pão para nós. Não pretendia ir e implorei para não ir, mas ela só correu para fora, dizendo que precisávamos do pão. Apesar de não querer ir, corri atrás dela, para que não ficasse sozinha. Os dois jovens rapazes ficaram felizes em nos ver. Um deles estava segurando minha mão quando de repente as luzes apagaram. Diversas pessoas entraram. Fomos escoltadas de volta ao nosso barracão, mas levaram Magda com eles. Teve que se despir totalmente e esperaram. Pouco depois um oficial SS chegou e minha prima foi surrada com um bastão de borracha. Ouvi-a gritar e senti a sua dor. Em meu coração, sabia que ela queria apenas o bem para nós. Só queria um pouco de pão. Quando terminaram com ela, esperava que viessem me pegar, mas isso não aconteceu. Magda disse-lhes que eu só tinha corrido para lá para chamá-la de volta. Podíamos ver os dois Kapos fora, havia dois postes com uma corda grossa no meio. Cada homem estava amarrado pelos pés e braços e foi deixado lá, pendurado no poste, por horas.

Na manhã seguinte fomos amontoados como sardinhas em um vagão e fomos enviados para um campo de trabalhos forçados. Levou muitas horas para chegar lá. Lembro-me de dizer a Magda que as pessoas eram muito boas, pois tinha caído no sono em cima delas. O que não tinha percebido é que estava dormindo em cima de corpos mortos. Minha prima sofria de dores terríveis da surra. Quando o trem parou, finalmente, no destino designado e a porta abriu, fomos forçados a carregar os cadáveres.

Dormimos no chão em um barracão, com somente um pouco de palha espalhado em volta. A comida era horrível e muito pouca. Para descrever a extensão da fome, uma vez retirei uma migalha de pão da parede da latrina e a comi. Homens e mulheres usavam a mesma latrina. Não havia nada parecido com dignidade humana.

O trabalho era duro. Recebemos uma picareta e tínhamos que cavar uma área montanhosa, para construir uma trincheira. Não recebemos roupas quentes. Embrulhávamos os pés em pedaços de trapos, tínhamos medo de congelamento. Algumas vezes gostaríamos de poder falar com alguém, mas um soldado SS aparecia imediatamente, gritando para parar de falar e continuar trabalhando.

Um dia, Magda ficou doente. Não conseguia ir para o trabalho. Fiquei preocupada o dia todo, o que aconteceria com ela? A mesma coisa aconteceu comigo também. Não havia um médico. Por sorte nossa, no dia seguinte conseguimos ir para o trabalho. As pessoas que ficavam afastadas do trabalho mais de duas vezes, nunca víamos de novo.

Eventualmente, à medida que os russos estavam avançando, este campo teve que ser eliminado. A marcha começou. Ainda era o inverno e estava muito frio. Marchamos o dia todo. Quando algumas pessoas estavam próximas do colapso e os próprios guardas estavam muito cansados, normalmente encontravam um local para nós onde podíamos passar a noite, normalmente em baias, como animais. Estávamos famintos. Lembro que, uma vez, quando marchávamos, reparei em algumas cascas de batatas congeladas na neve. Peguei algumas rapidamente e as comi.

Uma noite, depois de termos sido trancadas em uma baia, uns poucos de nós decidiram que deveríamos tentar escapar. Subimos ao sótão. Estava cheio de forragem. Nos enterramos na forragem. Na manhã, quando os guardas SS vieram nos levar, ficamos no sótão. Na primeira noite, alguém atirou algumas cenouras e foi isso que comemos. Mas na manhã seguinte, um grupo de rapazes, adolescentes fanfarrões, vieram até o sótão. Um a um, nos jogaram pela janela, gritando, “Juden, Juden!” [Judeu, Judeu!]. Caindo dois metros e meio, me concentrei em cair sobre meus pés. Todos ficamos doloridos e machucados. Em pouco tempo, um guarda SS veio e levou-nos de volta para o grupo, e mais uma vez a marcha continuou.

Uma noite, era bem tarde. Estávamos extremamente cansadas e minha prima sentia-se doente. Implorei-lhe para continuar a caminhar. Ela virou-se e disse: “Vera, continue você. Não posso caminhar mais” e caiu. Naquele momento, deitei-me ao lado dela, dizendo-lhe para fingir que estávamos mortas. O primeiro guarda gritou para que levantássemos, continuássemos a caminhar. Quando um segundo guarda veio e quis disparar contra nós, lhe disse, “estão mortas, não desperdice suas balas”.

Imóveis, ficamos ali até que não houvesse mais sons. Naquele momento, disse a Magda que tínhamos que continuar caminhando, ou congelaríamos até a morte. Lentamente rastejamos para fora da sarjeta. Com Magda se apoiando em mim, lentamente caminhamos. De repente percebemos uma luz. Logo percebemos que era uma casa. Neste ponto, não tínhamos escolha. Ninguém disse uma palavra para nós. Ficamos encolhidas embaixo de uma cama e caímos no sono ali. Na manhã, um homem nos cutucou com uma vassoura, gritando, “Juden heraus” (judeus, caiam fora). Rastejamos para fora. Após deixar a casa, jogou algumas migalhas de pão para nós. Parei para pegá-las e comemos tudo. Lembro de pensar que ainda havia alguma humanidade restante nele.

Continuamos a caminhar. Andamos por uma área mais povoada e de repente vimos um policial dirigindo o tráfego. Rapidamente fizemos uma volta e entramos em uma casa. Uma mulher veio a nós e perguntou se queríamos alguma comida. Naturalmente queríamos, estávamos famintas. Ela voltou com duas porções de presunto e purê de batata em pratos de porcelana, com talheres. Não sabíamos exatamente porque estavam sendo tão bons, mas logo outra mulher veio e nos disse que os russos tinham chegado na área e que, se os russos viessem até a casa, queriam que disséssemos que eram boas pessoas, que nos tinham protegido e dado comida. Agora entendíamos a situação em que estávamos. Ficamos felizes, pois finalmente ficaríamos livres.

Passados alguns minutos, soldados russos entraram na casa. O pai ou avô estava sentado com todas as suas condecorações militares em seu uniforme. Um soldado russo fuzilou-o imediatamente. Ficamos com medo. Não sabíamos o que aconteceria a nós. Uma das mulheres veio a mim, implorando para salvar a sua filha, dizendo que um soldado russo a tinha levado para um quarto e que a mataria. Pensando como nos tinham tratado bem, corri para o quarto. Ainda era muito ingênua, não percebia que estava estuprando-a. Comecei a explicar que essas pessoas nos tinham dado comida. Ia pegar sua arma. Minha prima correu para o quarto, me agarrou, deu um tapa na minha cara, e puxou-me para fora. Ela estava tremendo. Perguntou-me: “você não sabe a razão porque ele levou a garota para aquele quarto?” Naquele momento, eu não sabia. Estava tentando salvar uma vida, mas estava em estado de choque. Se não fosse por Magda, teria sido morta.

Também percebemos que corríamos perigo. A liberdade pela qual esperávamos não veio. Não havia lei e ordem. Estávamos sozinhas. Quando a noite veio, dormimos com nossas cabeças cobertas por um xale, para parecer menos atrativas. Mesmo assim, uma noite enquanto ambas dormíamos, um soldado me acordou. Com sua lanterna brilhando nos meus olhos, ordenou para ficar de pé e segui-lo. Eu estava aterrorizada. Gritei e chorei. Minha prima tentou explicar que tínhamos estado em um campo de concentração, que éramos judias. Ele disse que judeu era bom. Então Magda disse-lhe que eu era só uma criança. Neste momento ficou zangado e disse a Magda, “você não é uma criança”, e a forçou a ir com ele. Fiquei esperando atormentada, sem saber o que aconteceria com ela. Voltou logo e disse que não tinha conseguido estuprá-la, pois chorara e gritara muito. Ficou zangado e bateu nela com seu fuzil e deixou-a ir. O medo continuava todos os dias.

Continuávamos procurando por comida. Encontramos uma jovem garota e sua mãe de origem polonesa. Acharam algumas batatas, as cozinharam e insistiram em partilhá-las conosco. Também eram sobreviventes. Nunca pude esquecer delas. Uma vez nos escondemos em uma pilha de forragem para evitar alguns soldados. Devem ter reparado em nós e incendiaram a forragem, para forçar-nos a sair. Um oficial russo mais velho reparou na gente. Disse que parecia com sua filha. Ele mantinha uma camaradagem com uma mulher da mesma casa onde ficávamos. Tivemos sorte dele notar a situação em que estávamos.

Uma tarde encontramos uma jovem garota, também uma sobrevivente. Vinha de uma família muito religiosa. Disse-me como era grata por ter sobrevivido e que quando fosse para casa, esperava achar sua família. Bem, isso não aconteceu. Um soldado russo bêbado a estuprou durante a noite. Na manhã seguinte a garota estava morta, tinha sangrado até a morte. O soldado ainda estava ao lado dela, bêbado.

O oficial russo mais velho se tornou um bom amigo para nós. Algumas vezes trazia alguma comida. Lembro claramente do casaco de inverno bege e branco que me deu, também sapatos, mas, acima de tudo, lembro que provavelmente salvou nossas vidas. Cedo numa manhã, pessoas jovens foram reunidas. Magda e eu fomos escolhidas. Disseram para entrar em um caminhão do exército. Ambas tentamos explicar que não éramos o inimigo, que não éramos alemãs, que éramos sobreviventes judias, mas não fez diferença. Fomos forçadas a entrar no caminhão. Enquanto esperávamos no caminhão, reparamos que nosso amigo, o oficial russo, estava falando com os soldados, e logo depois vieram nos dizer para sair do caminhão. Não sabíamos como lhe agradecer o suficiente. Mas, este homem tinha um coração. Sabia de nosso sofrimento e só queria nos ajudar. Não esperava nada de nós. (...)

Semanas passaram, o clima estava ficando mais brando. Magda achou uma bicicleta. Decidimos procurar em dupla por comida nela. Conseguimos encontrar um pouco de comida e estávamos voltando quando em uma estrada de terra deserta quando ouvimos soldados russos nos chamando. Magda acelerou, pedalando o mais rápido que podia. Os soldados começaram a atirar. Se estavam só atirando para o ar ou se erraram o alvo, não sabíamos. O fato importante é que conseguimos fugir ilesas.

Várias semanas mais passaram, era a primavera. Estávamos imaginando como e quando seríamos capazes de voltar para a Hungria. Tinha medo, mas ainda esperava e rezava por algum milagre que fizesse ver minha família de novo. Em minha mente, não queria acreditar que o mundo permitiu o genocídio sem razão de nosso povo, somente por sermos membros da fé judia. Parecia ser criminoso, tão inacreditável mas, naturalmente, dado o que tinha visto e pelo que tinha passado, havia muitas razões para estar temerosa.

Em um dado momento em maio, nosso amigo, o oficial russo, veio ver-nos. Disse que a ferrovia para a Hungria tinha sido consertada. Disse o momento exato quando um trem estaria saindo. Aconselhou a tomá-lo e seguimos o seu conselho. Sabíamos que só queria o nosso bem. Queríamos muito voltar, apesar de que nunca mais pude chamar novamente a Hungria de lar. Amava o país; era bonito, mas ficava me lembrando da cooperação do governo húngaro com os alemães, e a vontade deles em fazer todas aquelas atrocidades horríveis contra nós.

Chegamos no trem. Foi difícil entrar no vagão de carga. Não havia plataforma; tínhamos que puxar-nos para dentro. Estava repleto de soldados russos, muitos deles bêbados. Com nossas cabeças cobertas – parcialmente cobríamos também nossos rostos – não olhávamos para nada, a não ser para o chão. A única cisa que vimos: soldados bêbados urinando no piso. Depois de várias horas, o trem parou em uma pequena cidade. Saltamos e nos transferimos para um trem de passageiros. Enquanto caminhávamos, procurando um assento, uma mulher cuspiu em frente a nós e disse o seguinte: “esses judeus sujos estão voltando”. Naquele momento fiquei muito feliz por termos sobrevivido e que os anti-semitas sentiam a derrota. (...)

Agora é outubro de 1999. Estamos nos preparando para passar os duros meses de inverno na Florida. Estou terminando minhas memórias. Foram muito difíceis de escrever. Estou cansada mental e fisicamente. É impossível aceitar esta indescritível tragédia que a humanidade deixou acontecer. A despeito de todo nosso sofrimento, sou grata às garotas Freed de Vár utza, Kisvárda. Elas me levantaram e me encorajaram a continuar a caminhar de Birkenau para Auschwitz. Elas tiveram suas grandes perdas, mas ainda assim se preocupavam com outro ser humano.

Fonte: Montreal Institute for Genocide and Human Rights Studies - Holocaust Survivors Memoirs

SE O ANTIGO TESTAMENTO NOS CONTA A HISTÓRIA DO POVO JUDEU E JESUS ERA JUDEU POR QUE A IGREJA CATÓLICA SE JULGA A ÚNICA CORRETA?



A seguir apresentamos uma breve cronologia dos maus tratos e perseguições movidas pela Igreja Católica ao povo judeu. Essa cronologia mostra que o Holocausto de 6 milhões de judeus na Alemanha nazista não era uma novidade para a Igreja, que os judeus eram inimigos antigos que deveriam ser eliminados, seja pela espada de Pedro ou pela máquina de matar de Hitler.

Era Comum (E.C.)

Incidentes
70-
Os romanos sob Tito retaliam contra um levante judaico; destruíram Jerusalém e o Templo, escravizaram muitos líderes e dispersaram o povo judaico. Em 79, Tito sucedeu Vespasiano como imperador. Judeus e cristãos sofreram sob ele e o imperador Domitiano.

88 – 97
O papa S. Clemente responsabilizou os judeus pela persecução de Nero aos cristãos.

113 – 116
A segunda revolta judaica contra Roma sob o imperador Trajano era sem sucesso.

135-A terceira rebelião judaica contra Roma foi esmagada e seu líder, Bar Kochba, quem muitos judeus aceitaram como Messias, foi morto. Rábi Akiba foi torturado também.

200-Quando o imperador Severo criou leis impedindo que pagãos, sob pena de severa punição, abraçassem o Judaísmo, o bispo de Alexandria, Orígenes, escreveu: “Podemos então asseverar com absoluta certeza que os judeus não retornarão à sua situação anterior, pois têm cometido os mais abomináveis crimes, formando a conspiração contra o Salvador da raça humana … Por isso, a cidade em que Jesus sofreu foi necessariamente destruída, a nação judaica expulsa do seu país e um outro povo (quer dizer a Igreja) foi chamado por Deus para ser a eleição abençoada.

300-
Eusébio, bispo de Cesaréia, declarou que os judeus em cada comunidade crucificaram um cristão no seu festival de Purím como rejeição de Jesus. Usava a acusação de assassínio ritual feita pelos pagãos Demócrito e Apião, a qual os romanos fizeram antes contra os primeiros cristãos. Eusébio distingiu entre hebreus que eram boas pessoas no Antigo Testamento e judeus que caraterizou com maus.

306-O Sínodo Eclesial e Elvira (Espanha) baniu todos os contatos comunitários entre cristãos e os maus hebreus e estabeleceu que cristãos não podiam casar com judeus.

324-Quando Constantino chegou a ser imperador, declarou-se cristão e estimulou os seus súditos a se converterem à Cristandade. Restabeleceu as leis dos seus antecessores que proibiam aos judeus viverem em Jerusalém e se engajarem em qualquer atividade de fazer prosélitos.

325-O Concílio Eclesial de Nicéia, convocado por Constantino, para assentar uma controversa teológica referente à natureza de Cristo, continuou os esforços de separar a Cristandade do Judaísmo decidindo que a Páscoa não pudesse mais ser determinado pela páscoa dos hebreus (Peçah): Porque é demasiadamente imprópria que nestes mais santos festivais sigamos os costumes dos judeus. De ora em diante, não tenhamos mais nada em comum com esse odioso povo…
337-O imperador Constantino declarou: Deixem a minha vontade ser religião e lei da Igreja! Um dos seus primeiros atos era proibir sob punição de morte o casamento entre um judeu e uma mulher cristã.

367 – 376
S. Hilário de Poitiers escreveu e falou de judeus como gente perversa para sempre maldito por Deus. S. Efrém se refere nos seus hinos a sinagogas como prostíbulos.
379 – 395
O imperador Teodósio protegeu os judeus das persecuções da Igreja aos heréticos. Crisóstomo e Ambrósio de Milão – ambos santos – quiseram incluir judeus na perseguição. Crisóstomo: Os judeus são os mais desvalidos de todos… São os pérfidos assassinos de Cristo. Veneram o diabo, sua religião é uma doença… Ambrósio reprimendou o imperador por reconstruir uma sinagoga e propôs que ele mesmo a queimasse. S. Gregório de Nissa caraterizou judeus como assassinos de profetas, companheiros do diabo, raça de víboras, sinédrio de demônios, inimigos de tudo que é belo, porcos e cabras na sua lasciva grosseria. O Concílio Eclesial de Laodicéia proibiu que cristãos respeitassem o Sábado Judaico.

395 – 408
O imperador bizantino Arcádio resistiu ao fanatismo cristão. Não permitiu a destruição de sinagogas. S. Epifânio caraterizou os judeus como desonestos e indolentes.

408 – 450

Teodósio II. proibiu que os judeus construíssem novas sinagogas.

415-S. Cirilo, o bispo de Alexandria, incitou o populacho contra os judeus e os tinha expulso. O bispo Severo queimou uma sinagoga e incitou gente a agredirem e apoquentarem judeus nas ruas. Muitos judeus converteram-se ao Cristianismo por medo. S. Agostinho, bispo de Hipo: O verdadeiro judeu é Judas Iscariotes, que vende o Senhor por prata. O judeu nunca pode entender as Escrituras e para sempre vai carregar a culpa pela morte de Jesus.

418-O bispo Severo de Maiorca forçou judeus a se converterem. Violenta luta de rua irrompeu com um populacho incitado pelo bispo. A sinagoga foi queimada. Finalmente, os líderes da comunidade judaica se renderam e 540 judeus foram convertidos. S. Jerônimo, que estudara com cientistas judaicos na Palestina e traduziu a Bíblia ao latim (a Vulgata), escreveu sobre a sinagoga: Se a chamares um prostíbulo, um covil e vício, um lugar de depravar a alma, um abismo de qualquer desastre concebível ou qualquer coisa que quiser, estarás ainda dizendo menos do que merece.

489-
Um populacho cristão pôs fogo nas sinagogas de Antioquia e jogou os corpos de chacinados judeus no fogo.

506-Um populacho cristão agrediu e destruiu a sinagoga de Dafne perto de Antioquia. A congregação foi chacinada.

519-A população cristã de Ravena agrediu judeus e queimou a sinagoga.

528-
Sob o imperador Justiniano, a Lei Romana foi sistematizada e codificada como Corpus Iuris Civilis, também conhecido como o Código Justiniano. A Lei e doutrina Eclesiais chegaram a ser política de estado. Aos judeus não era permitido testemunhar contra cristãos. Não podiam celebrar Peçah antes da Páscoa e não lhes era permitido senão uma versão prescrita da Escritura nas suas sinagogas, e lhes era proibido usar orações consideradas anti-trinitárias.

535-O Sínodo Eclesial de Clermont decretou que judeus não pudessem ocupar cargos públicos ou ter autoridade sobre cristãos.

538-
Aos judeus foi (outra vez) proibido ter criados ou escravos cristãos, o que os efetivamente excluía da agricultura. O Terceiro e o Quarto Concílios de Orleans proibiram aos judeus aparecerem em público durante os períodos da Paixão e Páscoa.
554-O bispo Avito de Averna tentou converter judeus sem resultado. Então incitou um populacho que destruiu as sinagogas. Os judeus tiveram de escolher entre batismo e expulsão. Um judeu se converteu. Durante a procissão depois do seu batismo, um judeu o borrifou com óleo rançoso. Isso enfureceu o populacho e muitos judeus foram mortos. 500 judeus permitiram ser batizados. Os restantes fugiram para Marselha.

561-
O bispo de Uzes na França forçou os judeus na sua diocese a decidirem entre batismo e expulsão.

582-
João de Éfeso transformou sete sinagogas em igrejas. Sob o rei merovíngio Chilperico, todos os judeus no seu reino tinham de escolher entre a conversão ou ter os seus olhos arrancados.

589-
O rei espanhol Sisebuto restringiu severamente os direitos dos judeus no seu reino. Estes não tinham permissão de possuir ou cultivar terra ou de operar em determinados negócios. Mais tarde editou um ultimato a todos os judeus: converter-se ou ser exilados.

628 – 629
O imperador Heraclio ordenou e forçou a conversão de todos os judeus no seu império e renovou os códigos de Adriano e Constantino que barravam os judeus de Jerusalém. Dagoberto, o rei merovíngio, seguiu o exemplo e Heraclio, forçando os judeus no seu reino sob ameaça de morte a se converterem à Cristandade.

633-
O Terceiro Concílio de Toledo decidiu contra conversões compulsórias. Contudo, judeus que no passado foram convertidos à força não podiam voltar ao Judaísmo, tendo de separar-se das comunidades judaicas. Crianças judaicas foram tiradas dos seus parentes e criadas em mosteiros. Nem a judeus, nem a convertidos à Cristandade era permitido ocupar cargos públicos. O Concílio era presidido por Isidoro, bispo de Hispalis (Sevilha).

638-
O Quarto Concílio de Toledo decretou que crianças judaicas batizadas como cristãs não sejam evolvidas aos seus pais de sangue. Convertidos tinham de ser rigorosamente supervisionados pelas autoridades eclesiais. Judeus tinham de jurar que teriam abandonado a Lei e prática judaicas. Punições estendiam-se de açoites, perda de membros, confisco de propriedade a ser queimado na estaca. Os bispos de Sevilha e de Toledo, Isidoro e Juliano, escreveram documentos polêmicos contra os judeus.

638 – 642
Não-católicos foram expulsos da Espanha visigoda.

653-O Oitavo Concílio de Toledo concordou com o rei Recesvindo da Espanha que apareceu perante o Concílio chamando o Judaísmo de uma poluição do seu país e pediu a remoção de todos os infiéis. Os judeus tiveram de assinar um juramento (placitum) que tornou a prática do Judaísmo quase impossível. Violações foram punidas por cremação ou apedrejamento.

655-
O Nono Concílio de Toledo prescreveu que judeus convertidos passassem todas as festas judaicas e cristãs na presença dum bispo.

681-
O rei Erviges da Espanha proibiu que judeus praticantes entrassem em portos do mar. Mandou que todos os judeus fossem batizados. Os convertidos tinham de ouvir sermões cristãos e não tinham permissão observar as leis dietéticas. O Duodécimo Concílio de Toledo confirmou as ordens do rei que decretaram queimar o Talmude e outra literatura judaica.

692-
O Sínodo trulanico do Império Oriental proibiu que cristãos assistissem festas judaicas, e que tivessem relações amigas com judeus e amparo de médicos judeus.

693 – 694
Os Décimo Sexto e Décimo Sétimo Concílios de Toledo, presidido pelo rei Egiza e o sucessor do bispo Juliano, Félix, restringiram outra vez severamente os direitos dos judeus, acusando-os de minarem a Igreja, de massacre de católicos, de conspiração com mouros e de destruição do país. Judeus foram declarados escravos, sua propriedade foi confiscada e suas crianças forçosamente educadas em famílias católicas ou mosteiros.

722-
O Judaísmo foi proscrito no império por Leão III e os judeus batizados à força. Alguns foram mortos, queimados nas suas sinagogas.

829-O arcebispo de Lião, S. Agobard, escreveu nas suas epístolas que judeus nasceram escravos, e que estariam roubando crianças cristãs para vendê-las aos árabes.

845-
Os bispos de Lião, Rheims, Sens e Bourges convocaram o Concílio de Meaux para renovar restrições antijudaicas. O imperador Charles de Bald recusou implantá-las no Concílio de Paris (846).

855-
Luís II, rei da Itália, expeliu os judeus de efeito em 1o. de outubro de 855. Em sermões durante o período da Páscoa, a população de Beziers foi encorajada a vingar a crucificação de Jesus. A nobreza de Toulouse tinha por alguns anos o privilégio de publicamente esbofetear as orelhas do presidente da comunidade judaica nas Sextas Feiras Santas. Mais tarde, isso foi mudado para um pagamento anual que os judeus tinham de fazer.

1009 – 1012
Como resultado da destruição do Santo Sepulcro em Jerusalém pelos moslins, comunidades judaicas foram atacadas por populares em Orleans, Ruão, e Roma. Judeus que recusaram a conversão foram expulsos de Mogúncia sob o imperador Henrique II na primeira perseguição séria na Alemanha.

1021-
Roma foi golpeado por um terremoto e um vendaval na Sexta Feira Santa. Vários judeus foram detidos e acusados de terem metido um prego através de uma hóstia no dia anterior, causando por isso o desastre natural. Sob tortura confessaram profanação de hóstia e foram mortos por cremação. Profanação de hóstia chegou a ser uma acusação muito difundida. Foi muitas vezes piorada por rumores de que a hóstia sangrara. Para as incultas e supersticiosas massas, isso confirmava o dogma da Eucaristia.

1063-
Quando soldados na sua marcha atacaram comunidades judaicas durante a guerra para expulsar os sarracenos da Espanha, o papa Alexandre II preveniu os líderes franceses dos exércitos a não fazer mal aos judeus.

1078-
O papa Gregório VII decretou que judeus não pudessem ocupar cargos públicos ou ser superiores de cristãos. Em 1081, Afonso VI de Toledo, Espanha, foi reprimendado pelo papa por apontar judeus em cargos de estado. judeus tinham de pagar taxas extra para sustentar a Igreja.

1095 – 1096
O papa Urbano II convocou para uma Cruzada contra os turcos. O duque de Lorena tentou juntar um exército para a Cruzada. Para coletar dinheiro, espalhou o rumor de que iria matar os judeus para vingar a morte de Cristo. Os judeus da Renânia lhe pagaram 500 peças de prata como resgate. O imperador Henrique IV mandou que os cavaleiros o seu império não atacassem os judeus. Cruzadores massacraram judeus de Ruão e de outras cidades na Lorena. Comunidades judaicas na Alemanha supriram o exército de Pedro o Eremita, tentando assim evitar os ataques os Cruzadores. Estima-se que 10.000 judeus foram massacrados na França e na Alemanha. Emich de Leisinger com seu bando de milhares de Cruzadores ignorou a ordem do imperador, começando uma campanha e terror contra os judeus. Em Speyer matou doze. O restante da comunidade foi protegido pelo bispo de Speyer que puniu alguns dos assassinos cortando-lhes as mãos. O conde Emich, então, moveu o seu bando a Worms. O bispo e Worms não podia proteger os judeus na sua diocese. O arcebispo de Mogúncia e autoridades civis deram asilo sagrado aos judeus e fecharam as portas da cidade ao conde Emich. Os soldados deste arrombaram as portas e mataram 1.000 judeus. Os judeus de Colônia tinham fugido, só dois foram mortos e a sinagoga foi queimada. Quando os bandos moviam-se descendo o vale do Reno, uma estimativa e 12.000 judeus foram assassinados nas cidades ao longo do rio Reno. Bandos e tropas moveram-se pelo vale a Mosela, matando judeus no seu caminho. À comunidade judaica de Trier foi dada proteção pelo bispo, sob condição de conversão. Muitos foram batizados, outros se suicidaram. Os Cruzadores e Guilherme o Carpinteiro, executaram outros. O cavaleiro Volkmar chegou na Hungria com 10.000 homens para juntar-se ao exército de Pedro o Eremita. Atacou a comunidade judaica em Praga. O bispo Cosmo e líderes a cidade tentaram em vão para os massacres. Quando tentou atacar os judeus em Nitra, os húngaros vieram em sua defesa e derrotaram os cruzados. Gottschalk, um cavaleiro o exército de Peter o Eremita, chefiou a seção sob seu comando, massacrando a comunidade judaica de Ratisbona.

1099-Os Cruzadores sob Godofredo de Bouillon conquistaram Jerusalém. Massacraram os moslins e impulsionaram judeus, rabanitas e caraítas, para dentro da sinagoga e os queimaram vivos.

1100-
O primeiro pogrom de judeus em Kiew. Em vários distúrbios os populares pilharam lares saquearam o distrito judaico.

1120-
O papa Urbano II declarou que os judeus devem ser tolerados. Na sua convocação à Cruzada, falou favoravelmente sobre os judeus. Embora as Cruzadas eram dirigidas contra os moslins na Terra Santa, os bandos, que se formaram marchando pelo país trouxeram incontáveis sofrimentos aos judeus que, junto com os moslins, eram vistos como inimigos da Cristandade.

1140-
O monge cisterciense Rudolf excitou gente contra os judeus na França e Alemanha. Massacres correram em Colônia, Worms, Speyer e Estrasburgo. Os arcebispos de Mogúncia e Colônia solicitaram Bernardo de Clairvaux que silenciasse Rudolf e ordenar o povo a não molestarem os judeus. Como isso não tivesse efeito nenhum, Bernardo finalmente veio à Alemanha e mandou Rudolf de volta ao mosteiro. Embora Bernardo se opunha ao matar os judeus, demonizou-os também e convocou uma Segunda Cruzada.

1140-
A primeira acusação de assassínio contra judeus relatada ocorreu em Norwich, Inglaterra. Líderes judaicos foram mortos. Pedro o Venerável de Cluny tentou fazer voltar Luís VII da França contra os judeus. Quis que financiassem as Cruzadas.

1146-
A pregação do monge Rudolf continuou ter efeito em ataques de populacho, massacres e batismos forçados através de todo o vale do Reno. Simão o Pio de Trier e uma mulher judia de Speyer foram mortos quando se recusaram a serem batizados, apesar de tentativas de autoridades civis e eclesiais para proteger os judeus.

1147-
Cruzadores na Alemanha assassinaram 20 judeus em Würzburg. Em Belitz, todos os judeus foram cremados. 150 judeus foram assassinados na Boêmia. Ataques a comunidades judaicas também na França.

1171-
Acusação de assassínio ritual em Blois, França. A inteira comunidade judaica de 34 homens e 17 mulheres foi torturada e queimada.

1181-
Acusação de assassínio ritual em Bury St. Edmund, Inglaterra. 1183 o mesmo em Bristol. 1192 em Winchester.

1188-
Quando Richard I foi coroado, populares atacaram a comunidade judaica em Londres e Iorque. Richard puniu os desordeiros. A judeus batizados à força foi permitido retornar à sua fé.

1190-
O rei Richard era capaz de proteger os judeus contanto que estava no país. Quando o deixou para uma nova Cruzada, os agregados cruzadores na Inglaterra atacaram comunidades judaicas. Os bairros do Port of Lynn em Norfolk foram queimados e os judeus massacrados. Judeus de Norwich refugiaram-se no castelo real. 1.500 judeus foram assassinados em Iorque. A comunidade em Stanfort foi pilhada e os que não alcançaram o castelo foram mortos.

1191-
Na França, a cidade de Bray foi cercada pelo rei Filipe. Os judeus tinham escolha entre batismo e morte. A comunidade cometeu suicídio. Filipe queimou 100. Crianças menores de 13 foram poupadas.

1194-
Os judeus de Londres tinham de pagar 3 vezes a importância que cidadãos cristãos tinham de pagar para o resgate de Richard I.

1195-
Um presbítero, Fulk of Neuilly, que quis reformar a Igreja, pregou através da França inteira contra usura e exigiu que usurários devolvessem os seus ganhos aos pobres. Populares usavam seus sermões para atacar judeus, e barões os usavam para expulsar os judeus dos seus reinos de autoridade e confiscar as suas propriedades.

1209-
Na Cruzada contra os albigenses (considerados como uma heresia cristã), 20.000 pessoas, inclusive a comunidade judaica, foram massacradas quando a cidade de Bezziers foi tomada de assalto.

1215-O Quarto Concílio do Latrão, presidido pelo papa Inocêncio III, ordenou que os judeus usassem um distintivo amarelo em forma dum anel. Isso era a primeira vez no ocidente que se exigiu dos judeus que se distinguissem do resto da população por seu vestuário. (O Código de Omar tivera isso decretado antes em países moslins.) Aos judeus não era permitido vestir os seus melhores roupas aos domingos ou andar em público em dias especiais como Páscoa.

1218-O rei Henrique II transformou esse decreto conciliar para um secular, ordenando a todos os judeus na Inglaterra usar um distintivo na sua roupa exterior todo o tempo, para distingui-los dos cristãos.

1222-Durante o Concílio de Canterbury, os bispos ingleses emitiram uma injunção impedindo que cristãos vendessem provisões a judeus. Para neutralizar isso, o justiciário do rei, Hubert de Burgh, emitiu uma ordem que proibiu aos súditos do rei, sob pena de prisão, recusar-se a prover judeus com os necessidades da vida.
1231-O papa Gregório estabeleceu a Inquisição para contrabalançar muitas heresias cristãs que brotaram devido a maiores liberdades no renascimento de países europeus. Provocaram a autoridade da Igreja Romana. A Inquisição era para desarraigar heresias antes e que se espalhassem às massas. Tribunais, compostos pela maior parte e monges, serviam de polícia, prossecução, juiz e júri. Autoridades seculares executaram as torturas e queimações no posto de impenitentes hereges, pois os inquisidores quiseram evitar derrame de sangue. Os judeus, naturalmente, eram especialmente vulnerável a ataques durante esses expurgos.

1232-
O papa Gregório IX lamentou aos bispos na Alemanha que os judeus aí estariam sendo tratados demasiadamente bem. Proibiu relações amigas entre cristãos judeus.

1235-O bispo de Lincoln declarou que os judeus teriam de ser em cativeiro para os príncipes da terra. Têm o labéu de Caim, sendo condenados a migrar pala face da terra. Mas teriam também o privilégio de Caim. Não devem ser mortos.

1236-
As comunidades judaicas em Anjou, Poitou, Bordeaux e Angouleme são atacadas por cruzadores. 500 judeus escolheram a conversão e mais que 3.000 foram assassinados. O papa Gregório IX, que originalmente convocara a Cruzada, era escandalizado sobre essa brutalidade, criticando o clero por não a prevenisse.

1239 – 1242
Por ordem do papa Gregório IX, todas as cópias do Talmude tiveram de ser entregues às ordens dos franciscanos e dominicanos para serem examinadas. Parece que o decreto papal foi executado somente na França. Livros judaicos e o talmude foram apreendidos também na Inglaterra, havendo cremação de livros. Em Paris, 24 carradas de cópias do talmude foram queimadas. O papa Inocêncio IV parou as confiscações e mandou devolver as cópias de talmude, embora não sem expurgar as passagens que pareciam objetáveis à Igreja.

1244-Em Londres, judeus foram acusados de assassínio ritual e taxados para uma alta importância de dinheiro como punição.

1247-
Quando a acusação de assassínio ritual chegou a ser muito difundida, causando muitas atrocidades, o papa Inocêncio ordenou uma investigação da acusação, que provou que era uma invenção anti-judaica.

1255-
O corpo morto do Pequeno S. Hugo de Lincoln foi descoberto numa fossa sanitária perto da casa dum judeu. Sob tortura confessou que Hugo tivera sido assassinado para um ritual. O rei Henrique III ordenou seu enforcamento depois de arrastado vivo pelas ruas, atado num cavalo. 100 judeus foram levados a Londres para processo. 18 foram enforcados sem processo. 2 foram perdoados e um absolvido.

1261 – 1264
Estudantes, presbíteros e monges de Canterbury atacaram o bairro judaico. Populares saquearam a seção judaica de Londres em 1262 e 1264.

1263-Um debate houve em Barcelona, Espanha, diante do rei Tiago I, nobreza, bispos e líderes monges. Rábi Moisés ben Naleman teve de defender o talmude contra um judeu convertido, Pablo Christiani, que tentou provar a eficiência da Cristandade a partir do talmude. O rei Tiago ordenou apagar passagens do talmude, que eram objetáveis a cristãos.

1267-
O Sínodo de Viena decretou que cristãos fossem proibidos a atender cerimônias judaicas. Judeus eruditos foram proibidos a discutir com cristãos simples. Os judeus tinham de usar chapéus cornudos, chamados de pileum cornutum. As pessoas realmente criam que os judeus tinham cornos que estavam escondendo embaixo desses chapéus, sendo crianças o diabo. Tomas de Aquino (1226-1275) disse que os judeus não poderiam ser tratados como vizinhos, mas deveriam viver em perpétua servidão.

1270-
Judeus foram massacrados na Alemanha: em Weissenberg, Magdeburg, Sinzig, Erfurt e outras cidades. Em Sinzig, a comunidade foi trancada na sinagoga no Sábado e queimada viva.

1272-
A sinagoga principal de Londres foi fechada. A razão apresentada foi que o canto disturbava a devoção dos monges na vizinhança. Os judeus tinham de reunir-se em casas particulares, mas até isso era restrito por ordem do bispo de Londres.

1275-O Statutum Judeismo foi passado na Inglaterra sob o rei Eduardo I. A lei proibiu os judeus a cobrarem juros, restringiu a área onde pudessem viver, mandou judeus a partir de sete anos usar o distintivo e exigiu que os acima de doze pagassem uma taxa anual na Páscoa. Mas a lei permitiu também que judeus, pela primeira vez, arrendassem terra para lavoura e se tornassem comerciantes e artesãos.

1278-
Eduardo I acusou-os de moedeiros. Buscas de casa a casa tiveram lugar pela Inglaterra inteira, e 680 judeus foram jogados na Torre de Londres. Muitos foram enforcados e tiveram sua propriedade apanhada pela coroa.

1280-
Na Polônia, autoridades civis tentaram atrair judeus estabelecendo vida judaica numa base racional. Mas a Igreja insistiu que os judeus ficassem isolados do resto da população. O Sínodo de Buda introduziu o distintivo judaico. Na Espanha, os judeus foram forçados a ouvir sermões de conversão de monges nas suas próprias sinagogas. Fanáticos populares agrediram judeus contra as ordens das autoridades civis.

1281-
A maioria dos judeus espanhóis foram presos nas suas sinagogas num Sábado do janeiro, mas soltos com a promessa de pagar uma grande importância de dinheiro de resgate.

1282-
O arcebispo de Canterbury fechou todas as sinagogas na sua diocese.

1283 – 1285
Dez judeus foram assassinados por populares em Mogúncia, depois de terem sido acusados de assassínio ritual. 26 judeus foram mortos como resultado duma acusação de assassínio ritual em Bacharach. 40 judeus foram assassinados depois duma acusação de assassínio ritual em Oberwesel. Em Munique, 180 judeus foram queimados vivos na sinagoga depois duma acusação de assassínio ritual.

1290-
Em 18 de julho, o rei Eduardo I, em Concílio, mandou que todos os judeus, sob pena de morte, deixassem o país até o dia primeiro de novembro.

1298-
Severas persecuções tomaram lugar na Francônia, Bavária e Áustria. Um nobre alemão, de nome Rindfleisch (era chamado de Judenschlächter [açougueiro de judeus]) juntou um pequeno exército e começou a matança de judeus de cidade a cidade. Em cerca de seis meses queimou e massacrou um número estimado de 100.000 judeus em 140 comunidades, incluindo Würzburg, Ratisbona, Nuremberga, Augsburg, Heilbronn e Rottingen.

1306-
Sob Filipe IV, todos os judeus do seu reino, aproximadamente 100.000, foram presos em 22 de julho. Foi lhes dito que deixassem o país dentro de um mês. Não podiam levar senão suas roupas e provisões para um dia. Sua propriedade deixada atrás foi usada por Filipe para reencher a tesouraria real, esta que tivera sido exaustada pelo seu feudo com o papa e sua guerra contra os flamengos.

1308-
O bispo de Estrasburgo, João de Dirpheim, inquiriu os judeus de Sulzmatt e Rufach por acusação de profanação de hóstia. Foram queimados vivos.
1315-O rei Luis X chamou de volta os judeus que tinham sido expulsos da França. Eles, em troca, puseram condições, que foram atendidas. Mas outra vez tinham de usar distintivos.

1320-
O papa João II ordenou a inquisição em Toulouse. Aí e em Perpignan, o talmude foi queimado. Durante a Cruzada dos Pastores, 40.000 pastores e camponeses marcharam de Agen a Toulouse, matando qualquer judeu que não era disposto a ser batizado. Em Verdun, 500 judeus fugiram a uma torre. Quando foram assediados, cometeram suicídio. 120 comunidades judaicas no sul da França e no norte da Espanha foram exterminadas.

1328-
Milhares de judeus foram assassinados por populares ao redor de Estella, quando um monge pregou inflamantes sermões antijudaicos.

1338-
O bispo João de Dirpheim causou o massacre de judeus em Estrasburgo no aniversário da Conversão de S. Paulo.

1348-
Quando a peste grassava na Europa, os judeus na Espanha foram acusados de planejarem a envenenar os poços dos cristãos. Na França, Espanha e Suíça, judeus foram assassinados porque o povo cria que teriam envenenado os poços ou o pretenderiam fazer. No mês e setembro, o papa Clemente VI editou bula papal declarando os judeus inocentes da acusação de causar a praga. Exortou o clero a proteger os judeus e até excomungou assassinos. Mas os populares não podiam ser retidos. 10.000 judeus foram assassinados por populares poloneses nas cidades perto da Alemanha, apesar da proteção real dada pelo rei Kasimir. O prefeito de Estrasburgo, Konrad von Winterthur, junto com outras autoridades, defendeu os judeus contra os ataques de populares e as acusações do bispo. Os concelhos de outras cidades tentaram o mesmo.

1349-
A comunidade judaica de Basiléia foi queimada morta numa estrutura especialmente construída. 2.000 judeus pereceram em Estrasburgo. Em Worms, 400 judeus foram queimados. Em Oppenheim, os judeus queimaram-se a si mesmos, temendo a tortura. O mesmo aconteceu em Frankfurt. Em Mogúncia, 6.000 judeus foram queimados à morte quando o populacho pôs fogo nas suas casas. Em Erfurt, a comunidade judaica de 3.000 foi massacrada, e em Breslau todos os judeus pereceram. Em Viena, os judeus cometeram suicídio, aconselhados por seu rábi, para evitar tortura. As comunidades judaicas de Augsburg, Würzburg Munique foram destruídas. Os judeus foram expulsos de Heilbronn. Os judeus de Nuremberga que não fugiram, foram queimados à morte num lugar que desde então é conhecido como Judenbühl. Os judeus de Königsberg foram massacrados. Em Bruxelas, aproximadamente 500 judeus morreram num massacre.

1354-
12.000 judeus foram massacrados em Toledo.

1357-
Quando a peste voltou outra vez na Francônia, os judeus foram outra vez incriminados de terem envenenado os poços. A peste, também chamada a Morte Preta, matou milhares. Durante esse tempo, o mito de conspiração judaica foi inventado, mito esse que, apesar das suas absurdidades, continua sendo acreditado por muitos, até hoje!

1366 – 1369
Quando a guerra civil grassava entre o rei Pedro e Henrique de Trastamora, muitos judeus foram massacrados por mercenários empregados por ambos os lados.

1384-
Os judeus de Nördlingen foram atacados e massacrados.

1389-
Populares atacaram e massacraram milhares de judeus em Praga.

1391-
A Inquisição virou-se contra os judeus que se tinham convertido à Cristandade. Em muitos casos, continuaram secretamente praticar o Judaísmo, sendo por isso considerados heréticos. Por toda a Inquisição, um número estimado e 50.000 judeus foram mortos, e outros 160.000 batizados à força. Em muitas cidades da Espanha, sinagogas e mesquitas foram transformadas em igrejas, e comunidades judaicas sofreram terríveis perseguições. Depois, 300 judeus foram assassinados ou cometeram suicídio em Barcelona, 11.000 judeus permitiram que fossem batizados.

1399-
Em Posen, Polônia, um rábi e 13 anciãos da comunidade judaica foram lentamente queimados até à morte, acusados de terem apunhalado a hóstia e a jogado numa cova. Rumores circularam que a hóstia teria sangrado, o que, naturalmente, confirmava o dogma da Eucaristia.

1407-
Os fogosos sermões do monge e reformador Vicente Ferrer causou opressivas ações contra os judeus na Espanha e agressões de populares. É creditado com 20.000 forçados batismos em Castela e Aragão.

1413 – 1415
Dom Fernando de Aragão convocou debates em Tortosa. Foram imaginados para facilitar para judeus a conversão à Cristandade. Os líderes judaicos de Aragão foram forçados a debater com um judeu convertido, Jerônimo de Santa Fé. As disputas prolongaram-se por um ano e nove meses, com resultados negativos para as comunidades judaicas.

1419-
O papa Martinho V e os reis espanhóis restauram direitos judaicos. Sinagogas e cópias de Talmude são-lhes devolvidos.

1422-
A Cruzada contra os hussitas na Boêmia e Morávia causaram muito mal a comunidades judaicas. Na sua marcha a Praga, o exército do imperador alemão Sigismundo, com mercenários holandeses, destruíu comunidades judaicas ao longo do rio Reno, na Turíngia e na Bavária, tudo para vingar o insultado Deus dos cristãos.

1427 – 1429
Uma bula, editada pelo papa Martinho V, proibiu os capitães do mar transportarem judeus à Terra Santa. Também, numa outra bula, exigiu a proteção dos judeus, estabelecendo direitos da comunidade, entre estes permitindo aos judeus estudarem em universidades.

1431-
Uma acusação de assassínio ritual levou à destruição de comunidades judaicas alemãs em Ravensburg, Überlingen e Lindau.

1432-
Os judeus foram expulsos de Saxônia.

1434-
O Concílio de Basiléia, presidido pelo papa Eugênio IV, revogou as liberdades que Martinho V tinha conferido. Os judeus tinham de viver em bairros separados das cidades, atender sermões de conversão e não tinham permissão de atender universidades.

1443-
Os judeus de Venécia tinham de usar o distintivo amarelo.

1451-
O papa Nicolau V, numa bula, confirmou as velhas exclusões de judeus da sociedade cristã e de todas as profissões honestas. João de Capistrano foi apontado pelo papa para orientar a Inquisição dos judeus. Nos seus sermões repetia as acusações de assassínio ritual e profanação de hóstia, o que levou a persecuções em Breslau sob o rei Ladislau da Silésia.

1454-Quando o exército polonês pela Ordem Teutônica e os prussianos, o clero, que fora excitado pelos sermões de Capistrano na Polônia, culpou a lenidade real para com os judeus pela calamidade. Direitos judaicos foram retirados e populares atacaram comunidades judaicas.

1457-
Tropas poloneses em marcha à Cruzada contra os turcos atacaram os judeus de Cracóvia, matando cerca de 30.

1492-
Todos os judeus foram expulsos da Espanha católica.

1500 – 1530
Os dominicanos batizaram muitos judeus. Esses convertidos, porém, não eram muito mais seguros dos ataques de populares. Alguns destes convertidos escreveram extremamente hostis volumes antijudaicos, pretendendo causar dano à Judiaria: Vítor de Carben em 1505, João Pfefferkorn (quatro peças sarcásticas) em 1505-09, Antônio Margharita em 1530. Os dominicanos também rejeitaram o estudo da língua hebraica.

1509-
O imperador Maximiliano autorizou João Pfefferkorn a destruir qualquer coisa que fosse blasfema ou hostil à Cristandade. Começou em Frankforte no rio Meno, onde vasculhou lares judaicos e sinagogas, confiscando mais que 1.500 manuscritos.

1517-
No tempo da Reforma, o papa editou uma bula: Cum nimis absurdum. Essa é reconhecida como o documento cristão antijudaico mais devastador que jamais foi escrito. Requis que os judeus usassem distintivos de ignomínia, vivessem em guetos e vendessem qualquer propriedade fora dos muros do gueto.

1521 – 1523
Em O Magnificat e no tratado Que Jesus Cristo nasceu judeu, Martim Lutero reagiu contra o tratamento rude de judeus, esperando que eventualmente pudessem se converter. A Reforma contribuiu para mais liberdade para os judeus. Em países protestantes gozavam de maior tolerância e tinham menos restrições, podendo desenvolver uma cultura mais dinâmica do que em países católicos. Mesmo assim, os judeus continuaram vivendo vidas precárias em qualquer lugar. Nos países católicos, a guetoização chegou a ser a norma. A cultura judaica era sufocada, e o novo estereótipo de judeu de gueto foi adicionado aos muitos já existentes.

1541-
João Eck, o polemista católico romano, escreveu um tratado contra Davi Gans, um judeu. Gans esperava que o protestantismo fosse mais tolerante do judaísmo. O panfleto de Eck, Refutação dum Livro Judaico, revivifica todas as antigas acusações: assassínio ritual de crianças, profanação de hóstia, etc. Além disso, chama os protestantes da Alemanha aduladores e amadores de judeus.

1543-
Essa acusação pode ter contribuído para a mudança da atitude de Lutero aos judeus. Transpirou uma série de tratados, intitulados “Sobre Judeus e as suas Mentiras, Sobre Shem Hamforas: Suas sinagogas devem ser incendiadas… suas casas devem igualmente ser demolidas e destruídas… Deixem-nos ganhar seu pão pelo suor dos seus narizes, como ordenado às crianças de Abraão. Reverteu à posição medieval de perigo do ataque de Eck contra o protestantismo e à crença das histórias de Eck de que os judeus matariam crianças para os seus rituais. No tratado Nas últimas palavras de David, moderou sua posição, mas seguiu a tradição de interpretar o Antigo Testamento em termos cristológicos. Esses panfletos mostraram-se impopulares e teriam sido esquecidos, se os nazistas os não tivessem ressuscitado na Edição de Munique (primeiro vol. 3, 1934). Alguns homens famosos do tempo da Reforma que eram simpáticos aos judeus eram João Brenz (1499 – 1570), o reformador da Suábia, e os teólogos André Osiander (1498-1552) e Matias Flacius (1520-1575).

1554-
Em Genebra, Teodoro Beza publicou um livro sobre Porquê heréticos devem ser punidos pelos magistrados. Essa era uma réplica ao eloqüente apelo de Sebastião Castellio por liberdade religiosa. Castellio fora removido de Genebra pelo reformador João Calvin, porque duvidava que o Cântico dos Cânticos formasse parte das Escrituras.

1580 – 1620
A República dos Sete Países Baixos (Holanda) chegou a ser muito tolerante aos judeus. Chegou a ser um porto para judeus que fugiram da Inquisição. Aí, os argumentos de Castellio por liberdade religiosa prevaleciam sobre a influência de Beza. Quando os Países Baixos estavam sob o reinado de Carlos da Espanha, os judeus foram expulsos.

1582-
Na Scots Confession (Confissão Escocesa), cap. 18, o reformador João Knox manteve a doutrina calvinista original de intolerância, distinguindo “a prostituta” (Roma) e as sujas sinagogas de a verdadeira Igreja.

1622-
O rei Cristiano da Dinamarca e outros convidaram judeus a residirem nos seus países, quando a Guerra dos Trinta Anos grassava na Europa Central.

1646 – 1647
A Confissão de Westminster, por ato do parlamento escocês, substituiu a Confissão Escocesa, definindo a Igreja em termos universais sem difamações antiromanas ou anti-semíticas nos seus capítulos sobre a Igreja.

1648 – 1649
Durante a rebelião dos Cossacos e camponeses russos na Polônia, Ucrânia, Rússia Branca e Lituânia, as mais cruéis torturas foram inventadas para os judeus. Milhares morreram sob prolongada brutalidade. Crianças não foram poupadas. Há relatos de raptos e horríveis chacinas, de gente sendo morta devagar com lanças, de mulheres fendidas e gatos vivos costurados dentro delas. A cidade de Hamburgo expulsou os judeus.

1654-
Em 22 de setembro, Pedro Stuyvesant enviou para casa uma carta anti-semita das colônias no Novo Mundo à Companhia da Índia Ocidental, indicando que os judeus aqui também estavam em dificuldade. Os puritanos da Inglaterra viam os judeus como desafio ao evangelismo cristão.

1718-
Carlos XIII da Suécia abriu o país à imigração judaica. Todavia, restrições econômicas e de viajar foram impostos.

1744-
Os judeus foram expulsos da Boêmia, e 1745 da Morávia, sob a imperatriz Maria Teresa.

1753-
Sob a Imperatriz Isabel Petrovna, cerca de 35.000 judeus foram expulsos da Rússia.

1768-
A expansão da Rússia e a derrota da Polônia confrontaram os russos com largamente estabelecidas comunidades judaicas, que anteriormente não estavam sob o seu domínio. A Czarina Catarina II, a Grande, estabeleceu um território, o assim chamado Recinto de Residência. Era para impedir a população judaica de influenciar a sociedade russa e para ser um pára-choque entre a Rússia e os seus vizinhos ocidentais. Os judeus precisavam de licenças especiais para viajar fora do Recinto. Perseguições e judeus continuaram violentamente na Polônia, Lituânia e Rússia, aonde os judeus fugiram dos cruzadores e da Inquisição da Europa ocidental.

1791-
Aos judeus foi dada cidadania na França. A idade do Iluminismo (ou da razão) produziu um racionalismo que foi aplicado a assuntos sociais e econômicos. O sentido limitante de nacionalidade trouxe outra vez dificuldade para os judeus, porque estavam vivendo espalhados através de muitas nações.

1796-
Os Países Baixos concederam aos judeus plena igualdade e cidadania.

1808 – 1810
O Czar Alexandre I quis integrar os judeus na sociedade russa, ordenando que deixassem as aldeias onde estavam residindo. Um número estimado em 500.000 judeus deixaram o campo e flutuaram para dentro das cidades, onde milhares morreram de fome, de frio ou de doença. Medo de epidemia causou a revogação da lei.

1814 – 1820
Aos judeus de Dinamarca foi concedido emancipação quase completa. Cidades alemãs ainda expulsaram regularmente judeus: Lubeque, Brema, Würzburg e outras cidades da Francônia, Suábia e Bavária. Os assim chamados distúrbios HEP! HEP! (um grito de cruzadores: Hierosolyma est Perdita – Jerusalém está perdida) tomaram lugar em Francoforte, Darmstadt, Bayreuth, Karlsruhe, Düsseldorf, Heidelberga, Würzburg e até em Copenague.

1821-
Milhares de judeus fugiram da Grécia, depois de distúrbios antijudaicos.

1844-
Carlos Marx (um judeu) publicou seu tratado Sobre a Questão Judaica, Zur Judenfrage, repetindo os antigos estereótipos que os cristãos usaram.

1845-
O socialista francês, Afonso Toussenel, publicou o seu ataque anti-semítico Os Judeus, Rei da Época, Les Juifs Rois de lepoque.

1848-
A revolução trouxe a emancipação dos judeus, mas já em 1851 as constituições de Prússia e de Áustria incluíram outra vez restrições antijudaicas.
1850-Distúrbios contra judeus na cidade de Nova-York, guiados por um policial irlandês.
1855-Comte de Gobineau publicou seu Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas, Essai sur linequalité des races humaines. O moderno anti-semitismo usou isso pesadamente.

1868-
Hermano Gödsche publicou sua novela Biarriz sob o pseudônimo e Sir John Racliffe. Num capítulo intitulado de No Cemitério Judaico de Praga descreve um segredo encontro de meia-noite de representantes das 12 tribos de Israel, recebendo direções do Diabo sobre como dominar o mundo. Em 1872, só esse capítulo foi reimprimido como um panfleto em St. Petersburg, Rússia, com a declaração de que embora a história fosse ficção, basear-se-ia em fato. O panfleto foi reimpresso, mais tarde, em Moscou, Odessa e Praga.

1869-
Os judeus receberam status igual de cidadão na Alemanha.

1870-
O gueto em Roma foi formalmente abolido – contra os desejos do papa Pio IX – e os judeus chegaram a ser cidadãos iguais no reino da Itália.

1871-
O padre Augusto Rohling de Praga publicou seu panfleto O Judeu do Talmude, Der Talmudjude. Era um vicioso ataque anti-semita vastamente circulando entre católicos.

1873-
Guilherme Marr publicou seu panfleto Vitória da Judiaria sobre o Germanismo, Der Sieg des Judentums über das Germanentum. Aqui, o termo anti-semitismo foi usado pela primeira vez.

1875-
O Kulturkampf (Luta de Cultura) de Bismark contra os católicos na Alemanha, foi interpretado por católicos como sendo influenciado pelo capital judaico como vingança pela romana persecução aos judeus.

1878-
Adolfo Stoecker, o fundador do Partido Socialista Cristão de Trabalhadores na Alemanha, era cometido a anti-semitismo. Mais que 100.000 judeus romenos imigraram nos Estados Unidos, para evitar inanição por causa das leis discriminatórias no seu país.

1879-O professor Henrique von Treitschke na universidade de Berlim, fez-se um nome no mundo, não somente como historiador, mas também como moderno anti-semita. Numa coleção de ensaios Uma Palavra sobre a nossa Judiaria, Ein Wort über unser Judentum, declara, por exemplo, que anti-semitismo é uma reação natural do sentimento nacional alemão contra um elemento estranho que usurpara largamente demais um lugar na nossa vida.

1881-
Uma petição com 250.000 assinaturas foi submetido a Bismark pelo Movimento Berlim, exigindo severas restrições na vida judaica na Alemanha. O primeiro de muitos severos pogroms contra os judeus foi iniciado pela Sagrada Liga na Rússia, consistindo de 300 oficiais de exército. Os pogroms causaram uma das maiores emigrações na história judaica. Eugênio Duhring publicou seu A Questão Judaica como um Problema de Raça, Costume e Cultura, Die Judenfrage als Rassen-, Sitten- und Kulturfrage: A origem do desprezo geral, sentido pela raça judaica, jaz na sua absoluta inferioridade em todos os campos intelectuais. Os judeus mostram uma falta de espírito científico, uma fraca compreensão de filosofia, uma inaptidão para criar em matemática, arte e até música. Fidelidade e reverência com respeito a qualquer grande e nobre são-lhes alheias. Por isso, a raça é inferior e depravada… A obrigação dos povos nórdicos é exterminar tais raças parasitas como exterminamos serpentes e bestas de presa. Comícios do Movimento Berlim terminaram em distúrbios de bandos movimentando-se pelas ruas gritando Juden raus! (Judeus fora!), atacando judeus ou pessoas de aparência judaica, quebrando janelas de comércios judaicos.

1882-
O padre E. A. Chabauty publicou Os Judeus, nossos Mestres, Les Juifs, nos Maitres!, sobre nações cristãos sendo atacadas por conspiração judaica.

1886-
A Aliança Anti-semítica Alemã era formada por partidos da ala direita. Edudardo-Adolfo Drumont publicou seu A França Judaica, La France Juive, uma obra violentamente anti-semítica, largamente circulada.

1887-
Otto Boeckel, um dos líderes da Aliança Anti-semítica Alemã, foi eleito ao Reichstag(Parlamento) em Berlim. Karl Lüger, um político da esquerda, fez público o seu anti-semitismo. Chegou a ser um líder maior do anti-semitismo austríaco. Em Mein Kampf(Minha Luta), Hitler atribui seu anti-semitismo à influência de Lüger.

1889-
Max Liebermann von Sonnenberg, que fora um líder no Movimento Berlim, fundou o Partido Anti-semítico Social Alemão, Deutsch-Sociale Antisemitische Partei, em Bochum, Vestfália. O primeiro jornal anti-semítico na Hungria apareceu em Pressburg.

1890-
Quatro milhões de judeus fugiram à Europa Ocidental e América, devido à perseguições na Europa Oriental. Mas aqui também – na Terra dos Livres – os judeus foram restritos, sofrendo as antigas acusações. O Sionismo desenvolveu-se na Europa. Hermano Ahlwardt publicou seu A Luta de Desespero dos Povos Arianos Contra a Judiaria, Der Verzweiflungskampf der Arischen Völker mit dem Judentum, pintando a Judiaria um como polvo que controlasse qualquer setor da nação alemã. Anti-semíticos partidos ganharam cinco vagas no Reichstag (Parlamento) alemão.

1892-
Eduardo Drumont fundou o jornal francês La Libre Parole para popularizar seu anti-semitismo.

1893-
Anti-semíticos partidos ganharam dezasseis vagas no Reichstag (Parlamento) alemão.

1894-
O processo e conselho de guerra do oficial francês Alfredo Dreyfus (um judeu) por traição; foi mais tarde provado que foi causado por anti-semíticos oficiais de alto patente do exército e gente no ministério de guerra que forjou os documentos. O Caso Dreyfus causou distúrbios anti-semíticos na França.

1899-
Houston Steward Chamberlain publicou sua obra As Fundações do Século Dezanove (The Foundations of the Nineteenth Century). Levou a teoria racial de Gobineau à sua conclusão lógica, proclamando os germânicos como a raça mestre e exigindo uma cruzada contra os judeus.

1900 – 1910
Centenas de pogroms contra os judeus foram iniciados e sustentados pelas Centenas Pretas na Rússia e Ucraína. Uma breve versão dos Protocolos dos Doutos Anciãos de Sião foi publicado por Pavolackai Krushevan no seu jornal Znamya em St. Petersburg. A aceitação da sua ficção pela polícia segreda do Czar, ainda por cristãos aí e mais tarde em outros países, provaram como o antijudaísmo cristão tinha predisposto o povo a crer a mais fantástica propaganda anti-semita. S. A. Nilus publicou o texto inteiro dos Protocolos na terceira edição do seu livro O Grande e o Pequeno em St Petersburg. G. Butmi publicou sua versão dos Protocolos Os Inimigos da Raça Humana em St. Petersburg (quatro edições em dois anos). (Veja também 1917 e 1939).

1911-
Werner Sombart publicou seu livro O Judeu e o Moderno Capitalismo. Afirma que Judaísmo e capitalismo são praticamente sinônimos. Declarou: Interesses intelectuais e habilidade intelectual são mais fortemente desenvolvidos nele (no judeu) que forças físicas (manuais). (Compare 1881, onde Duhring declarara exatamente o contrário).

1914-
Leis antijudaicas foram abolidas, para que judeus pudessem lutar para a Santa Mãe Rússia na Primeira Guerra Mundial.

1915-
O grã-duque Sergei, comandante-em-chefe dos exércitos russos, decretou a recolocação de todos os judeus no Recinto, temendo que tomassem partido com os alemães. 600.000 foram transportados à força ao interior da Rússia. Cerca e 100.000 deles morreram de abandono às intempéries e de inanição.

1918 – 1920
Aproximadamente 200.000 judeus sofreram morte violento durante a fratricida guerra civil da Rússia e da guerra russa-polonesa em 1920. Era principalmente na Ucraína, mas houve também massacres em massa de judeus em Minsk, Pinsk e Vilna pelo exército polonês (documentado pelo governo dos EU) e em Yekaterinburg, Sibéria. Em julho de 1919, mais que 2.000 judeus foram massacrados pelo Exército Branco sob o almirante Kolchak. Os judeus foram acusados pelos bolcheviques de serem capitalistas e opostos a eles, e pelos Brancos de serem Vermelhos e comunistas. Sofreram mais pelos Brancos, que não fizeram diferença entre eles e os Vermelhos. Lenin proscrevia pogroms, mas o tratamento melhor que os judeus recebiam dos Vermelhos dava mais prova aos Brancos de que os judeus eram comunistas. Torturas terríveis e massacres de judeus aconteceram na Ucraína sob o general Denikin, cujo Exército Branco no sul da Rússia era armado e financiado principalmente pelos aliados, mormente o britânico. Na Declaração Balfour, a British Foreign Secretary (Ministério do Exterior Britânico) declarou a Palestina como sendo o lar nacional (national home) para os judeus. As nações árabes protestaram. Os Protocolos dos Doutos Anciãos de Sião foram primeiramente publicados na Inglaterra. Em distúrbios de Berlim e Munique, os judeus foram culpados por Alemanha ter perdido a guerra.

1920 – 1921
Gottfried zer Beek (Ludwig Müller) publicou os Protocolos em alemão. Alcançaram seis edições. A versão de Müller chegou a ser a versão oficial dos nazistas em 1929. Os Protocolos foram publicados também na França, Estados Unidos e Polônia. O Retorno à Normalidade reviveu o Ku Klux Klan nos Estados Unidos, e restrições de todas as espécies foram impostas na gente de descendência hebraica. Hitler fez o seu primeiro discurso importante contra os judeus em 13 de agosto, exigindo que se tirasse deles todos os seus direitos. Aproximadamente 1.450.000 judeus imigraram nos Estados Unidos num período de cerca de 30 anos. Para frear a imigração, o presidente Harding e o Congresso rescreveram as leis, limitando a imigração por nacionalidade por ano a três porcentos do número das pessoas dessa nacionalidade já nos Estados Unidos no censo de 1910. Outra severa restrição de imigração foi legislada em 1924.

1925-
Hitler publicou seu Mein Kampf (Minha Luta): Se, com a ajuda do seu credo marxista, o judeu está vitorioso sobre outros povos do mundo, sua coroa será a grinalda funeral da humanidade… Hoje creio que estou agindo de acordo com a vontade do Criador Onipotente: defendendo-me contra o judeu, luto pela obra do Senhor.

1926 – 1933
Os pogroms continuaram na URSS, Polônia, Romênia, Hungria, Grécia e México. Na Alemanha, cemitérios judaicos e sinagogas foram profanados.

1933-
Hitler chegou ao poder na Alemanha. Os judeus foram excluídos do serviço civil, profissões legais e universidades, não tinham permissão de ensinar em escolas e não podiam ser editores de jornais.

1934-
Grupos antijudaicos formaram-se por todo o Canadá. Anti-semitismo era espalhafatoso em muitos magazines e jornais.

1935-
Os judeus perderam sua cidadania na Alemanha.

1936-
Palestinos rebelam-se contra o Sionismo e a decisão britânica de oferecer aos judeus terras árabes. Durante o ano de 1936, meio milhão de judeus foram assentados na Palestina. Os britânicos tentaram bloquear o fluxo de imigração e negociar com organizações paramilitares judaicas. Nos expurgos de Stalin, muitos judeus perderam suas vidas na URSS. O Cardeal Hloud, o primaz da Polônia, numa carta pastoral, exortou os católicos a boicotarem negócios judaicos.
1937-Os campos de concentração de Sachsenhausen, Buchenwald e Lichtenburg foram estabelecidos na Alemanha. Todos os professores judaicos perderam os seus empregos na Itália. Crianças judaicas foram segregadas. Os Protocolos foram publicados na Itália e circularam largamente.

1938-Durante a noite de 9-10 de novembro, cerca de 7.000 lojas e negócios judaicos foram pilhados, a maioria das sinagogas queimadas e 91 judeus mortos na Alemanha. Cerca de 30.000 judeus mais ricos foram levados a campos de concentração. Mais tarde, a maioria desses foram soltos e receberam papéis de emigração, depois de todas as suas posses terem sido confiscadas. Uns poucos cem mil judeus podiam emigrar da Alemanha, Áustria, Boêmia e Morávia, transferindo tudo que tinham aos nazistas. Os judeus foram excluídos da vida pública, de escolas e universidades. Tinham de usar distintivos amarelos em forma da Estrela de David na sua roupa todo o tempo. Foram acusados de qualquer mal embaixo do sol, e estavam sempre com receio de levar uma batida ou ainda ser morto nas ruas.

1939 – 1941
O início da Segunda Guerra Mundial trouxe uma mudança da política de emigração para a de exterminação. Milhares de judeus foram arrebanhados pelos comandos de ação (Einsatzkommandos) da SS atrás da frente alemã que avançava e fuzilados ou levados a campos de concentração na Polônia. A GESTAPO (Geheime Staatspolizei = Polícia Secreta do Estado) arrebanhava judeus, ciganos, Testemunhas de Jehovah, comunistas, homossexuais e outros, e os pôs em campos.

1942-
Em 20 de janeiro, a conferência de dezasseis oficiais nazistas de alto patente em Berlim-Wannsee planejou a solução final, a completa exterminação da Judiaria Européia.

1942 – 1945
Aproximadamente seis milhões de judeus, entre eles cerca de um milhão de crianças, foram mortos em campos especiais de extermínio, todos situados na Polônia, que estava ocupada pelo exército alemão. O mais proeminente desses campos era Auschwitz. Holocausto é um termo bíblico que significa oferta queimada. O povo judaico se refere a esse evento mais devastador da sua história como à Shoáh. Muitas Igrejas na Alemanha suportaram Hitler como herói nacional. Algumas lhe resistiram. Mas a Cristandade como um todo falhou miseravelmente no resistir ao mal feito aos judeus e a outras minorias. E quando judeus refugiados bateram nas portas das nações opostas aos nazistas, esses refugiados foram rejeitados. Por todo o mundo ocidental, as Igrejas ficavam geralmente caladas, quando os judeus necessitavam de ajuda, sendo eventualmente massacrados. O Holocausto é, portanto, também a culminação do antijudaísmo cristão dos séculos. O seu próprio ensinar antijudaísmo paralisava os cristãos de agirem apropriadamente, quando seculares forças anticristãs e pagãs assumiram a linguagem de antijudaísmo das Igrejas Cristãs, levando este à mortífera conclusão. No início havia a palavra antijudaica – no fim a Solução Final.

Nota
Fonte : INPR
Texto inglês em A Short Review of a Troubled History, by Fritz B. Voll
See also: Paul E. Grosser and Edwin G. Halperin, Anti-Semitism: The Causes and Effects of a Prejudice. Secaucus, NJ: Citadel Press, 1979 (1976) / Don Mills, Ontario: George J. McLeod Ltd. and bibliography.